LEAL Só Existe Uma Maneira de Viver

Cinco soldados em camuflagem,armados e com expressões sérias. Fundo desértico e quente com helicópteros no ar. Imagem intensa.

LEAL Só Existe Uma Maneira de Viver se estabelece no cenário do cinema sul-americano como um vigoroso thriller de ação e drama,mergulhando nas complexidades daguerracontra o narcotráfico. A obra,dirigida por Rodrigo Salomón e Pietro Scappini,transcende a mera representação de confrontos armados para investigar a profundidade da lealdade e o custo humano da defesa intransigente de uma nação. Lançado em 2018,ofilmeoferece uma perspectiva crua e visceral sobre a luta paramilitar contra o crime organizado nas fronteiras paraguaias.

A tese central de “LEAL”reside na exploração da moralidade em tempos de guerra não declarada,onde a “única maneira de viver”se torna um código inabalável de honra e sacrifício. O filme argumenta que,diante da falha das instituições e da corrosão pela corrupção,a lealdade a um ideal e a disposição para operar à margem da lei podem ser a última fronteira de defesa. A narrativa desvela a dicotomia entre a necessidade de ações extremas para combater um mal pervasivo e o impacto dessas escolhas na psique individual e coletiva dos que as executam.

A direção de Rodrigo Salomón e Pietro Scappini confere ao filme uma estética que oscila entre o realismo documental e a intensidade do cinema de gênero. Os diretores empregam uma abordagem que favorece aimersão,com sequências de ação que se distinguem pela clareza geográfica e pela brutalidade sem adornos. A evolução do estilo,para ambos os cineastas,demonstra um amadurecimento na articulação de narrativas densas que não abrem mão do dinamismo visual,mas que o subvertem para aprofundar a tensão dramática em vez de apenas espetacularizá-la.

Tecnicamente,“LEAL”é notável pela sua construção atmosférica. A cinematografia adota uma paleta de cores predominantemente escura e dessaturada,com tons terrosos e metálicos que acentuam a gravidade do ambiente de fronteira e a natureza sombria das operações. Isso é evidente nas tomadas noturnas de infiltração,onde a iluminação baixa e os contrastes acentuados amplificam a sensação deperigo iminente. O design de som,por sua vez,é um componente crucial na imersão:osilênciotenso antes de um confronto é quebrado por disparos secos e percussivos,enquanto o zumbido constante de insetos e o som do vento nas áreas rurais sublinham a solidão e o isolamento do grupo. O roteiro de Andrés Gelós se destaca por desenvolver personagens complexos que,apesar de suas ações muitas vezes brutais,exibem camadas de humanidade e motivação. Aperformancede Luis Aguirre como Gorostiaga é a espinha dorsal do filme;sua interpretação de um coronel ex-militar é marcada por uma severidade silenciosa e uma determinação férrea. A vulnerabilidade de Gorostiaga brilha em momentos de introspecção,como na cena em que ele reflete sobre as perdas,onde a ausência de diálogo e a expressividade contida do ator transmitem o peso do isolamento e do sacrifício pessoal.

DireçãoRodrigo Salomón,Pietro Scappini
RoteiroAndrés Gelós
Elenco PrincipalLuis Aguirre (Gorostiaga),Fini Bocchino (María José),Bruno Sosa Bofinger (Dante),Fabio Chamorro (Chamorro),Dani Da Rosa (Espínola)
GênerosAção,Crime,Drama
Lançamento02/08/2018
ProduçãoArco Libre,HEi Films

Os temas centrais do filme gravitam em torno da lealdade,do patriotismo e da linha tênue entre a lei e a justiça. A lealdade é explorada não apenas como um juramento militar,mas como um compromisso pessoal e inquebrável com a pátria,mesmoquandoisso exige sacrifícios extremos. Uma cena exemplar é quando o grupo paramilitar,apesar de operar de forma não-oficial,arrisca suas vidas em umaemboscadana selva,evidenciando que sua motivação é a proteção do território e não o ganho pessoal. Este momento ilustra visualmente a “única maneira de viver”que o título sugere – uma existência dedicada à causa. A dualidade entre legalidade e justiça é constantemente questionada,com o filme sugerindo que,em certas circunstâncias,a aplicação da justiça pode exigir a transgressão dos protocolos estabelecidos.

Dentro do nicho de Thriller de Ação Militar/Policial de Combate ao Narcotráfico na América Latina,LEAL Só Existe Uma Maneira de Viver encontra paralelos temáticos e estéticos com produções que exploram a brutalidade e a moralidade ambígua da guerra às drogas. O filme compartilha a crueza e o questionamento ético da operação com Sicario (Denis Villeneuve,2015),que retrata a incursão de agentes emterritório hostilna fronteira EUA-México,mostrando como as linhas morais são frequentemente borradas na luta contra cartéis. Similarmente,a intensidade das operações de forças de elite contra o crime organizado,o sacrifíciopessoal e a pressão psicológica sobre os agentes,aliados a um forte enfoque cultural e identitário na realidade regional,o aproximam de Tropa de Elite (José Padilha,2007),que mergulha no dia a dia do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) no Rio de Janeiro. Ambas as obras refletem sobre a validade de métodos extremos frente a ameaças que corroem a estrutura social e estatal.

LEAL Só Existe Uma Maneira de Viver não é apenas um filme de ação competente,mas uma análise visceral sobre a defesa de uma nação em suas fronteiras mais vulneráveis. É um filme para quem busca dramas de ação com substância,que se atrevem a confrontar dilemas morais complexos e a realidade dura do combate ao crime organizado na América Latina. Sua relevância cultural reside na sua capacidade de humanizar os atores dessa guerra e de questionar os limites da lealdade e da justiça em um contexto onde a sobrevivência da na ordem pública depende de indivíduos dispostos a tudo.

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