Mentiras de família

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A gente sabe, lá no fundo do peito, que algumas dores cortam mais fundo. Não são as feridas abertas por estranhos, nem as decepções esperadas. Não, as piores são aquelas que sangram por dentro, causadas por quem a gente menos esperava: a família. É por isso que, quando me deparei com a premissa de “TRAIÇÃO”, um projeto que se propõe a dissecar essas histórias reais, senti um arrepio. E o segundo capítulo, “Mentiras de Família”, me fisgou de cara, porque quem de nós, em algum ponto da vida, não se viu enredado em uma dessas teias?

Eu, particularmente, sempre tive uma fascinação mórbida pelas nuances da verdade. Ou melhor, pela ausência dela, especialmente quando a moldura é o lar. A família, esse santuário que idealizamos, é também o palco de alguns dos segredos mais densos, das meias-verdades mais convenientes, e das mentiras mais dilacerantes. É um caldeirão de amor e ressentimento, de laços inquebráveis e fissuras que jamais cicatrizam. Então, um curta-metragem que decide mergulhar de cabeça nesse tema, e ainda por cima, embasado em histórias reais, já me tem a atenção.

“TRAIÇÃO” não é um novato no pedaço. O primeiro episódio, “Amar machuca demais”, já fez seu caminho, ganhando um prêmio importante lá nos EUA por seu roteiro. Isso, para mim, diz muito. Não é só sobre contar uma história, é sobre como ela é contada. É a arte de desvendar a psicologia por trás da traição, de entender os motivos, os danos, e os ecos que essas rupturas deixam. E se o roteiro do primeiro já se destacou, a expectativa para “Mentiras de Família” sobe, né? A gente espera a mesma profundidade, a mesma habilidade em transformar o ordinário – a mentira cotidiana – em algo extraordinariamente impactante.

O que me intriga em “Mentiras de Família” é justamente a justaposição desses dois pilares: “Mentiras” e “Família”. Não são mentiras banais, daquelas que a gente conta pra evitar uma multa ou atrasar um compromisso. São as mentiras que corroem a confiança de dentro para fora, que redefinem o que pensávamos saber sobre as pessoas que nos criaram, ou com quem crescemos. Pensa comigo: qual o peso de uma verdade escondida por anos, protegida pelo véu do parentesco? O que acontece quando o alicerce de um lar se revela construído sobre areia movediça de omissões e enganos? A dor não é a da raiva explosiva, é a da desilusão gelada, do nó na garganta que a gente tenta engolir junto com o café da manhã.

Atributo Detalhe
Ano de Lançamento 2023

Lançado há quase dois anos, em 13 de dezembro de 2023, tanto aqui no Brasil quanto lá fora, “Mentiras de Família” já teve tempo para se instalar no imaginário de quem o assistiu. E o fato de não termos, por ora, detalhes sobre o elenco principal ou a produtora, de certa forma, até intensifica minha curiosidade. Vira e mexe, a gente se prende tanto às estrelas que esquece que a verdadeira força de uma narrativa, especialmente quando baseada na vida real, reside na história em si. Sem rostos famosos para nos distrair, somos forçados a encarar a pura essência do drama humano. É como olhar para um espelho sem saber se o reflexo é seu ou de alguém próximo. A universalidade da dor e da revelação se torna a verdadeira protagonista.

Eu imagino as conversas silenciosas à mesa, os olhares que desviam, os sorrisos forçados. Aquele detalhe que não se encaixa, a ponta solta de uma história que, de repente, começa a desvendar um tecido inteiro de enganos. “Mentiras de Família” não é apenas um título, é uma promessa de mergulhar nas águas turvas da lealdade e da traição dentro do círculo mais íntimo. E, se seguir o caminho premiado do seu antecessor, deve fazer isso com uma sensibilidade e uma crueza que nos obriga a confrontar nossas próprias verdades e as pequenas, ou grandes, mentiras que todos nós, em algum momento, sustentamos ou nos vimos vítimas.

É um lembrete pesado, mas necessário, de que a confiança é um fio tão delicado quanto fundamental. E quando ele se rompe no coração da família, a cicatriz que fica é profunda, moldando quem somos, como amamos e, talvez, como mentimos. Para mim, “Mentiras de Família” não é só um filme; é um espelho, um convite para refletir sobre a complexidade da condição humana e sobre o preço, muitas vezes silencioso, da verdade. Vale a pena buscar, assistir, e, talvez, depois, conversar com o coração aberto. Quem sabe o que a gente descobre, né?

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