Sabe, há filmes que, mesmo sem uma sinopse detalhada à nossa frente, se gravam na memória só pela sua premissa, pela sua aura. São obras que nos puxam para uma conversa mais íntima, quase um convite a sentir. E é exatamente esse o caso de Mergulho, um trabalho de Pedro Sena Nunes que, lançado lá em 2009, ressoa na gente de um jeito que a gente simplesmente não consegue ignorar, mesmo agora, em pleno 2025. Eu me pego pensando, por que alguns filmes persistem? O que faz com que uma produção como essa continue a cutucar nossa alma depois de tantos anos?
Para mim, o “porquê” de escrever sobre Mergulho é uma questão de ressonância. A vida é um emaranhado de complexidades, né? E o cinema, na sua melhor forma, espelha isso. Mergulho não é um filminho de pipoca; o título já entrega: é um convite para descer fundo, para explorar as correntes subterrâneas da existência humana. E quando a gente olha para a lista de produtoras — Vo’Arte, a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa (APCL), o Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral, além da Fundação Calouste Gulbenkian e do Teatro São Luiz —, a gente percebe que esse mergulho não é para qualquer mar. É um oceano de experiências, de desafios, de superação e, acima de tudo, de humanidade pulsante.
Imagina só o processo criativo por trás disso. Pedro Sena Nunes, tanto na direção quanto no roteiro, não buscou o fácil, o óbvio. Ele escolheu navegar por águas que muitos preferem evitar, as águas da diferença, da reabilitação, da arte como ferramenta de expressão e transformação. Mergulho não nos conta uma história no sentido tradicional; ele nos coloca dentro dela, nos faz sentir a textura de cada emoção, o esforço de cada movimento, a luz que se acende nos olhos de quem encontra um novo caminho. É como se a câmera fosse uma extensão da nossa própria curiosidade, nos guiando por corredores onde a força de vontade não é um clichê, mas a própria essência da vida. Você não vê a tremedeira nas mãos de um personagem nervoso porque alguém te disse; você sente a vibração no ar, a energia concentrada em cada gesto, em cada respiração.
O elenco — António Cabrita, Carolina Ramos, Catarina Gonçalves, Pedro Ramos, Adelaide Oliveira — não é um grupo de atores performando papéis. Eles são, tenho certeza, os vasos através dos quais a essência do filme transborda. Acredito que suas presenças não são de representação, mas de existência. Eles nos convidam a enxergar, não a paralisia cerebral em si, mas as pessoas que a vivem, com seus sonhos, suas lutas, suas alegrias e suas conquistas. O filme, acredito, desvia do olhar piedoso e abraça o olhar do reconhecimento, da igualdade no potencial humano. É um lembrete vívido de que a arte tem o poder de quebrar barreiras invisíveis, de ampliar a nossa percepção sobre o que significa ser completo, ser capaz. Não se trata de uma jornada de super-heróis, mas sim da beleza de cada pequena vitória, da resiliência silenciosa que nos rodeia e que, muitas vezes, passa despercebida.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Pedro Sena Nunes |
| Roteirista | Pedro Sena Nunes |
| Produtores | Pedro Sena Nunes, Sara Vizinho |
| Elenco Principal | António Cabrita, Carolina Ramos, Catarina Gonçalves, Pedro Ramos, Adelaide Oliveira |
| Ano de Lançamento | 2009 |
| Produtoras | Vo'Arte, Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa (APCL), Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral, Fundação Calouste Gulbenkian, Teatro São Luiz |
Mergulho é um daqueles filmes que permanecem na gente muito depois dos créditos rolarem. Não é um final de sessão com um nó na garganta de tristeza, mas com um nó de reflexão, de gratidão. Ele nos desafia a olhar para o mundo com mais profundidade, a questionar nossas próprias bolhas, a reconhecer a beleza e a força em cada indivíduo, independentemente das suas particularidades. Pedro Sena Nunes, com a visão audaciosa das produtoras, nos entregou não apenas um filme, mas uma experiência. Uma imersão profunda na capacidade humana de reinventar-se, de expressar-se, de viver plenamente. E, convenhamos, num mundo que muitas vezes parece contente em flutuar na superfície, um mergulho assim é não só necessário, é um presente. Um presente que, 16 anos depois, ainda nos chama para as suas profundezas.




