Não! Não Olhe!

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Três anos se passaram desde que Jordan Peele nos convidou a não olhar. E, mesmo agora, enquanto o mundo continua a girar e novos filmes surgem, Não! Não Olhe! (Nope, no original) permanece gravado na minha memória cinematográfica com uma força estranha, quase magnética. Por que ainda penso tanto nele? Porque é um filme que não se contenta em apenas contar uma história; ele nos faz perguntas, questiona nossa própria compulsão pelo espetáculo e, de um jeito assustadoramente particular, nos convida a confrontar o que significa ser humano diante do inexplicável.

A gente já conhece a assinatura de Peele, né? Desde ‘Corra!’ e ‘Nós’, ele tem essa capacidade única de nos pegar pelo colarinho, nos assustar e, ao mesmo tempo, nos fazer pensar sobre questões sociais profundas, sem nunca pregar. E Não! Não Olhe! não é exceção. Eu, particularmente, sempre me vejo atraído por filmes que subvertem expectativas e, aqui, ele o faz de uma forma que é ao mesmo tempo grandiosa e intimista.

A trama, à primeira vista, parece um terror sci-fi mais tradicional: dois irmãos, OJ (Daniel Kaluuya, em uma performance que é pura contenção e silêncio eloquente) e Emerald Haywood (Keke Palmer, que brilha com uma energia caótica e contagiante), herdam um rancho de cavalos após a morte trágica e bizarra do pai. Eles são treinadores de animais para Hollywood, uma profissão que já carrega em si a tensão entre o controle e a natureza selvagem. Mas o rancho logo se revela palco de fenômenos inexplicáveis. O céu, antes um pano de fundo azul ou estrelado, transforma-se em uma ameaça latente, um predador invisível que espreita, e a busca por “filmar o mistério” vira uma obsessão.

E é aí que o filme, para mim, realmente decola para além de um simples conto de alienígenas. Peele não está interessado em uma invasão alienígena clássica, com lasers e grandes discursos. Ele nos apresenta algo mais primal, mais fundamentalmente assustador: o predador definitivo, aquilo que nos observa do alto e nos vê como alimento, ou, pior ainda, como um mero brilho na paisagem. A frase “bad miracles” (milagres ruins) é central, e me faz refletir sobre como interpretamos eventos grandiosos. Será que tudo que é grandioso é, por definição, bom ou divino? Ou será que nossa necessidade de atribuir significado e santidade a algo incompreensível nos cega para o perigo iminente?

Atributo Detalhe
Diretor Jordan Peele
Roteirista Jordan Peele
Produtores Jordan Peele, Ian Cooper
Elenco Principal Daniel Kaluuya, Keke Palmer, Brandon Perea, Michael Wincott, Steven Yeun, Wrenn Schmidt, Keith David, Devon Graye, Terry Notary, Barbie Ferreira
Gênero Terror, Ficção científica, Thriller
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Universal Pictures, Monkeypaw Productions

A performance de Daniel Kaluuya como OJ é um espetáculo à parte. OJ é um homem de poucas palavras, com um olhar que parece carregar o peso de gerações de domadores de cavalos. Ele tem uma intuição quase animal para a natureza e seus perigos. Sua irmã, Emerald, é o contraponto vibrante, a face moderna e ambiciosa que busca seu lugar ao sol, muitas vezes ignorada pela indústria que seu pai e irmão serviam tão fielmente. A dinâmica entre eles é o coração do filme, uma relação de amor, frustração e lealdade inabalável que se desenrola em meio ao caos cósmico.

Mas o que me marcou mais profundamente foi a exploração do tema do espetáculo e da exploração. Desde a tragédia de Gordy, o chimpanzé de um sitcom (interpretado por Terry Notary, com uma fisicalidade que ainda me assombra), até a figura de Ricky “Jupe” Park (Steven Yeun, brilhante como sempre), um ex-ator mirim que tenta monetizar seu trauma, o filme é um comentário afiado sobre nossa incessante busca por atenção e o perigo de tentar domar o indomável para o entretenimento. Jupe, em sua ingenuidade trágica, acredita que pode controlar a fera, transformá-la em um show. É a personificação da arrogância humana diante da natureza. Não seria essa uma das nossas maiores falhas como espécie, a de achar que tudo pode ser controlado, embalado e vendido?

Visualmente, Não! Não Olhe! é de tirar o fôlego. As vastas paisagens da Califórnia, o céu opressor, a forma como Peele usa o silêncio e o som para construir a tensão… tudo contribui para uma experiência imersiva. Há momentos em que o silêncio é tão denso que você consegue ouvir o próprio batimento cardíaco, antes de ser quebrado por um ruído guttural que vem das nuvens. É uma sinfonia de terror e admiração, onde a escala do desconhecido é palpável.

Alguns podem dizer que a narrativa por vezes se dobra sobre si mesma, ou que os elementos temáticos pesam mais que a fluidez da história, como apontado por Manuel São Bento em sua crítica. E, para ser sincero, essa é uma observação válida. Peele não está interessado em um roteiro linear e mastigado. Ele nos joga em um universo onde as pistas estão nas entrelinhas, nas referências históricas e na própria linguagem cinematográfica. Mas é justamente essa sua força! Não é um filme para quem busca respostas fáceis; é para quem aceita o convite de pensar, de se sentir desconfortável e de questionar a própria percepção.

Não! Não Olhe! não é apenas um filme de terror. É uma meditação sobre a atenção, a exploração, o trauma e a nossa place nesse vasto e indiferente universo. É um lembrete visceral de que há coisas que não deveríamos olhar, não porque sejam feias, mas porque nos devoram. E, três anos depois, a sensação de ter estado diante de algo verdadeiramente grandioso e aterrorizante ainda me acompanha. É o tipo de cinema que nos deixa com mais perguntas do que respostas, e eu, como amante da sétima arte, não poderia pedir mais.