Não Se Preocupe, Querida

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Não Se Preocupe, Querida: Um Subúrbio de Suspensos e Desejos Revestidos

Três anos se passaram desde que Não Se Preocupe, Querida chegou aos cinemas, e a reverberação daquela experiência continua a ecoar na minha mente. O longa-metragem de Olivia Wilde, estrelado por Florence Pugh, Harry Styles e Chris Pine, prometia um thriller psicológico com pitadas de ficção científica, e, em grande parte, cumpriu a promessa, embora com uma execução que, em retrospecto, se mostra mais ambiciosa do que efetiva.

A história acompanha Alice e Jack, um jovem casal vivendo na aparentemente perfeita comunidade de Victory, uma cidade planejada e idealizada, lar dos funcionários de um projeto ultrassecreto. Mas a vida idílica começa a desmoronar quando Alice descobre perturbadoras inconsistências na realidade que a cerca, confrontando a natureza artificial e inquietante do paraíso em que se encontra. O mistério se aprofunda, revelando segredos perturbadores sobre a cidade e os seus habitantes, colocando Alice em uma jornada angustiante de autodescoberta.

A direção de Olivia Wilde é, sem dúvida, um dos pontos altos do filme. Ela constrói a atmosfera de suspense com maestria, utilizando a estética impecável dos anos 1950 como ferramenta para criar um contraste desconcertante entre a beleza superficial e a podridão latente. As cores vibrantes e as casas imaculadas se tornam, aos poucos, um reflexo distorcido da realidade, prenúncio da opressão e dos horrores que se escondem por trás da fachada. A fotografia contribui decisivamente para este efeito, utilizando a luz e as sombras para realçar a tensão dramática e criar uma paleta visual memorável.

Atributo Detalhe
Diretora Olivia Wilde
Roteirista Katie Silberman
Produtores Miri Yoon, Roy Lee, Olivia Wilde, Katie Silberman
Elenco Principal Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine, Olivia Wilde, KiKi Layne
Gênero Ficção científica, Mistério, Thriller
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Vertigo Entertainment, New Line Cinema

Entretanto, o roteiro de Katie Silberman, apesar de algumas ideias brilhantes, peca por uma certa falta de coesão. A trama, embora rica em suspense, se perde em algumas sub-tramas que poderiam ter sido melhor exploradas ou, simplesmente, cortadas. Há uma sensação de que o filme tenta abarcar mais do que consegue entregar, deixando algumas pontas soltas e um final que, para muitos (incluindo eu), não é totalmente satisfatório. A ambição de abordar temas complexos, como a opressão feminina, a manipulação e a natureza da realidade, é louvável, mas a execução fica aquém do potencial.

As atuações, por outro lado, são impecáveis. Florence Pugh entrega uma performance visceral e poderosa como Alice, transmitindo a sua luta interna com extrema convicção. A fragilidade e a força da personagem são perfeitamente equilibradas, mostrando sua jornada de descoberta com intensidade e credibilidade. Harry Styles, apesar de algumas críticas iniciais, faz um bom trabalho, embora seu personagem seja menos desenvolvido e, portanto, menos impactante. Chris Pine brilha como o carismático e ameaçador Frank, interpretando a ambiguidade do seu papel com uma precisão cirúrgica.

O filme funciona como uma excelente metáfora para a opressão feminina em sociedades patriarcais. A cidade de Victory, com sua beleza enganadora, representa a promessa de uma vida perfeita, mas que aprisiona e subjuga as mulheres. A Alice de Florence Pugh personifica a luta dessas mulheres contra as expectativas sociais limitadoras e a luta por autonomia. Entretanto, o filme se apoia demais na estética retrô e nos clichês de filmes de culto e, em alguns momentos, perde o impacto que poderia ter tido com uma abordagem mais sutil e focada.

No fim das contas, Não Se Preocupe, Querida é um filme que, apesar de suas falhas, consegue ser fascinante e inquietante. Sua estética deslumbrante e as atuações excepcionais compensam, em parte, as deficiências do roteiro. Eu o recomendo para quem aprecia thrillers psicológicos com uma pitada de ficção científica e uma estética visual marcante. Mas prepare-se para um final que provavelmente gerará debates – e talvez algumas frustrações – entre os espectadores. Não é um filme perfeito, mas certamente memorável, e sua imagem e as perguntas que suscita continuam comigo, três anos depois da sua estreia. Recomendo fortemente, mas com a ressalva de que se prepare para um passeio intenso, nem sempre confortável, pelas zonas cinzas de um subúrbio cuidadosamente construído para esconder uma perturbadora verdade.