Neon Genesis Evangelion: Uma carta de amor (e desespero) para a humanidade
Trinta anos depois de sua estreia em 1995, Neon Genesis Evangelion continua a assombrar, a intrigar, a dividir e, acima de tudo, a inspirar discussões apaixonadas. Em 2025, olhando para trás, podemos afirmar com segurança: esta não é apenas mais uma série de robôs gigantes. É uma obra-prima de animação japonesa que, através da sua trama envolvente sobre a luta da humanidade contra seres misteriosos chamados Anjos, explora as profundezas da alma humana com uma brutalidade honesta e rara.
A sinopse, sem spoilers, é simples: No ano 2000, após um cataclísmico impacto de um meteoro na Antártida, a NERV, uma organização secreta, precisa defender a Terra de seres angélicos ameaçadores. Para isso, contam com os Evangelions (EVAs), robôs gigantes pilotados por adolescentes, escolhidos por uma capacidade inexplicável de sincronia.
A direção de Hideaki Anno é, para dizer o mínimo, revolucionária. A estética da série é única: a animação, mesmo para os padrões de 1995, se destaca pela sua expressividade, utilizando-se de ângulos inusitados, cores vibrantes e momentos de quase surrealismo para transmitir o peso emocional de cada cena. A música, composta principalmente por Shiro Sagisu, acompanha perfeitamente este clima, alternando entre momentos de ação épica e melodias melancólicas e introspectivas que penetram profundamente no psicológico das personagens.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Produtores | 杉山豊, 小林教子 |
| Elenco Principal | 緒方恵美, 三石琴乃, Megumi Hayashibara, 宮村優子, Yuriko Yamaguchi |
| Gênero | Ficção Científica e Fantasia, Animação, Drama |
| Ano de Lançamento | 1995 |
| Produtora | GAINAX |
O roteiro, por sua vez, é uma das maiores fontes de debates sobre a série. Anno não poupa seus personagens, submetendo-os a situações de extrema pressão psicológica e física. Shinji Ikari, o protagonista, é o protótipo do adolescente inseguro e emocionalmente ferido, que luta não apenas contra monstros, mas contra os seus próprios demónios. Sua jornada é angustiante e, por vezes, dolorosa de acompanhar. A relação complexa entre Shinji, Rei Ayanami, Asuka Langley Soryu e Misato Katsuragi forma o coração dramático da série. Cada uma dessas personagens é profundamente complexa, repleta de nuances e falhas, absolutamente longe de estereótipos heroicos.
As atuações de voz, no original japonês, são um ponto altíssimo. A entrega emocional de Megumi Hayashibara como Rei Ayanami, a energia explosiva de Miyuki Sawashiro como Asuka e a vulnerabilidade pungente de Megumi Ogata como Shinji, criam um retrato inesquecível destes personagens inesquecíveis.
Um dos pontos fortes de Evangelion reside exatamente nesta fragilidade dos seus heróis. A série não hesita em mostrar a face sombria da humanidade, a incapacidade de lidar com traumas, a solidão, a falta de comunicação e os mecanismos de defesa neuróticos que adotamos para sobreviver. É uma obra perturbadora, que nos confronta com as nossas próprias inseguranças e vulnerabilidades.
Por outro lado, a narrativa pouco convencional pode ser um ponto fraco para alguns. O final da série original, lançado em 1996, foi recebido com uma mistura de admiração e confusão. Ele é ambíguo, aberto à interpretação e, para muitos, insatisfatório em termos de resolução da trama. No entanto, essa ambiguidade é justamente o que torna Evangelion tão memorável, incentivando diversas interpretações e discussões sobre seus temas complexos.
Evangelion não é uma série para todos. Seu tom sombrio, a sua complexidade psicológica e a sua narrativa não-linear podem afastar aqueles que procuram algo mais leve ou tradicional. Mas para aqueles que se permitirem mergulhar na sua atmosfera densa e perturbadora, a série revela-se uma experiência memorável e profundamente significativa. Os temas explorados, que vão do isolamento e depressão à busca pela identidade e aceitação, mantêm-se surpreendentemente relevantes mesmo trinta anos após o seu lançamento.
Em conclusão, Neon Genesis Evangelion é mais do que uma série de ficção científica e fantasia: é um mergulho profundo na psique humana, uma obra de arte que consegue ser simultaneamente inspiradora e desconcertante. Recomendo a série a qualquer um que esteja disposto a enfrentar uma jornada emocionalmente intensa e a se confrontar com a complexidade da experiência humana, mesmo que o resultado seja perturbador. É uma experiência que, mesmo 30 anos depois, continua a ressoar na minha alma e a desafiar minhas visões de mundo. Não deixem de assistir, mesmo que apenas para debater os seus temas polêmicos depois.




