Nós: Um olhar profundo na efervescência adolescente – seis anos depois
Seis anos se passaram desde que Nós chegou aos cinemas brasileiros em 24 de agosto de 2019. E, mesmo com o tempo, a memória do filme permanece viva, como um eco daquela energia explosiva da adolescência que a obra tão bem captura. Não se trata de uma obra-prima cinematográfica, longe disso, mas Nós é um filme que mexe com algo profundo, algo visceral, e essa é sua maior força. A sinopse oficial já entrega a essência: Arthur, Carol e Max, três adolescentes tão diferentes quanto parecidos, vivem um turbilhão de paixões, descobertas e dilemas existenciais que definem quem são. É um drama, um mistério, um romance, um thriller – uma mistura eclética que, surpreendentemente, funciona.
A direção de Fábio Brandão e Dario Gularte, também responsáveis pelo roteiro, demonstra uma sensibilidade admirável para com a complexidade dos personagens. A câmera se aproxima dos rostos, capta os mínimos detalhes, a transpiração, o tremor nas mãos – uma imersão quase claustrofóbica na fragilidade e na força bruta da juventude. Existem momentos de sublime beleza visual, contrastando com outros de uma crueza quase documental, reforçando a veracidade da narrativa. A escolha de um estilo visual que oscila entre o contemplativo e o frenético reflete, de maneira brilhante, a própria instabilidade emocional dos protagonistas.
O roteiro, por sua vez, apresenta algumas falhas – certos diálogos soam um pouco artificiais, e a trama, por vezes, se perde em subplots desnecessários. Mas, mesmo assim, Nós acerta em cheio na construção dos personagens. Mauricio Piancó, Rafael Vitti e Joana Lugon formam um trio formidável, transmitindo a vulnerabilidade, a angústia e a efervescência típica da idade com maestria. Vitti, em particular, entrega uma performance intensa e memorável como Arthur. Os atores secundários também contribuem para enriquecer o contexto, com destaque para Silvio Matos no papel do Padre, que representa uma figura de autoridade questionável e intrigante.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretores | Fábio Brandão, Dario Gularte |
| Roteiristas | Dario Gularte, Fábio Brandão |
| Produtor | Fabio Bião |
| Elenco Principal | Mauricio Piancó, Rafael Vitti, Joana Lugon, Silvio Matos, João Fernandes |
| Gênero | Drama, Mistério, Romance, Thriller |
| Ano de Lançamento | 2019 |
Um dos grandes trunfos de Nós reside em sua capacidade de explorar temas complexos e universais com uma honestidade rara. O filme fala de amizade, de amor, de descoberta de identidade sexual, de violência, de fé – tudo isso apresentado sem julgamentos moralistas, mas com a crueza que a vida adolescente exige. É um filme que não busca respostas fáceis, mas sim questionar o próprio ato de existir e a busca pela definição de si mesmo.
Porém, o longa não está isento de defeitos. A trama, como mencionei, pode se tornar confusa em determinados momentos, perdendo um pouco o foco. A fotografia, embora em certos momentos muito inspiradora, em outros demonstra uma inconstância que poderia ter sido trabalhada melhor. Em suma, um problema de coesão em alguns aspectos da construção do filme como um todo.
No entanto, Nós, apesar de suas imperfeições, permanece um filme impactante. Não é uma obra perfeita, mas sua autenticidade e a força das atuações compensam os deslizes. Se você busca um filme que aborde a adolescência com nuances e sem maniqueísmos, Nós é uma experiência que vale a pena. A recepção crítica em 2019 foi dividida, mas, olhando para trás, em 2025, acredito que o filme merece uma revisitação, uma chance de ser apreciado com o olhar mais maduro do tempo. Recomendo a todos aqueles que buscam um mergulho profundo e visceral na complexidade da alma adolescente. Afinal, quem nunca se sentiu perdido, dividido, em busca da própria identidade? Nós nos lembra que essa busca, por mais turbulenta que seja, é o que nos define.




