Há filmes que a gente assiste e logo esquece, daqueles que preenchem o tempo de tela sem deixar muita coisa para trás. E há aqueles que se instalam na gente, viram uma espécie de bússola moral, um lembrete vívido de que a história não é apenas uma sequência de fatos, mas uma tapeçaria viva de destinos, injustiças e, por vezes, uma coragem que desafia o impensável. É por isso que, mesmo em 2025, a voz de O Fotógrafo e o Carteiro: O Crime que Parou a Argentina ainda ecoa na minha mente, instigando reflexões que vão muito além da tela.
Quando o documentário de Alejandro Hartmann chegou ao Brasil em maio de 2022, lembro-me de uma urgência particular em assisti-lo. Talvez fosse a promessa de desvendar um crime que, na época, para quem acompanhava as notícias da América Latina, parecia uma ferida aberta na alma argentina. O assassinato de José Luis Cabezas, um fotojornalista da revista Noticias, não foi apenas a interrupção brutal de uma vida; foi um soco no estômago da democracia, um aviso sangrento sobre os limites do poder e a fragilidade da liberdade de imprensa.
E Hartmann, junto com Tatiana Merenuk e Gabriel Bobillo no roteiro, entrega essa história com uma maestria que te prende do primeiro ao último minuto. Não é um documentário que se limita a expor fatos, como um boletim policial. Não, ele respira a atmosfera da Argentina dos anos 90, um país que tentava se reencontrar após a ditadura, mas que ainda se via às voltas com os fantasmas de um poder oligárquico e impune. A narrativa é construída com uma paciência quase artesanal, costurando depoimentos de familiares, colegas de trabalho, jornalistas investigativos e até mesmo de figuras políticas da época. Você sente o peso das palavras, o tremor nas vozes, a indignação latente que, mesmo décadas depois, ainda não se dissipou.
O filme não te diz que Cabezas era um jornalista corajoso; ele te mostra. Através de suas fotografias, de relatos de quem o conhecia, entendemos a obstinação de um homem que sabia que sua câmera era uma arma poderosa. E essa arma mirou em Alfredo Yabrán, um empresário enigmático e influente, cujo rosto jamais havia sido fotografado em público até a insistência de Cabezas e sua equipe. Era como desafiar uma sombra. E as sombras, você sabe, não gostam de ser expostas à luz.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Alejandro Hartmann |
| Roteiristas | Alejandro Hartmann, Tatiana Merenuk, Gabriel Bobillo |
| Produtora | Vanessa Ragone |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtora | Haddock Films |
O título, “O Fotógrafo e o Carteiro”, já é uma analogia poética e cruel. Cabezas, com sua lente, entregava a verdade. Yabrán, com sua rede de influência e violência, entregava o recado: a verdade, quando inconveniente, tem um preço. O documentário desdobra essa metáfora, mostrando como o corpo carbonizado de Cabezas em uma vala de Pinamar, com as mãos algemadas e dois tiros na nuca, se tornou um símbolo. Uma imagem tão potente quanto as próprias fotos que ele tirava. Foi um grito silencioso que reverberou por todo o país, transformando o “Não toquem em Cabezas” em um mantra de repúdio à impunidade.
O que me impressiona na direção de Hartmann é como ele consegue manter a tensão e a complexidade sem jamais cair na espetacularização barata. A produção de Vanessa Ragone e Haddock Films é impecável, entregando um trabalho de pesquisa que parece esquadrinhar cada canto, cada depoimento. Vemos as contradições, as meias-verdades, as pressões políticas e as manobras judiciais que tentaram, a todo custo, desviar o foco e proteger os poderosos. O filme não nos apresenta um mundo preto no branco; ele nos joga na lama cinzenta da corrupção, onde a justiça é uma planta frágil que luta para crescer.
E aqui, permita-me uma digressão pessoal: como alguém que consome e respeita o jornalismo investigativo, ver essa história se desdobrar é como assistir a uma batalha em que o inimigo usa todas as táticas mais sujas. O filme não só reconta um crime; ele nos faz questionar o papel da mídia, os riscos que jornalistas enfrentam e a importância vital de uma imprensa livre para qualquer sociedade que se preze. Quantos Cabezas silenciosos não existem por aí, em outras partes do mundo, com suas vozes abafadas, suas lentes quebradas?
O ritmo do documentário é fluido, variando entre a reconstrução minuciosa dos fatos e os momentos de reflexão mais profunda. Há cenas que nos levam de volta aos locais do crime, à efervescência política da época, à indignação popular expressa em marchas e gritos. É um mergulho em um passado recente que, infelizmente, ainda tem ecos assustadores no presente. “O Fotógrafo e o Carteiro” não é apenas um filme sobre um assassinato; é uma autópsia da ética, da política e da moral de uma nação.
Você termina de assistir a esse documentário não com respostas fáceis, mas com perguntas mais agudas. Ele te faz refletir sobre o preço da verdade, sobre a teia invisível de poder que muitas vezes governa nossos destinos e sobre a persistência da memória como arma contra o esquecimento. E é por isso que, mais de três anos após sua estreia, a história de José Luis Cabezas e de seu assassino, retratada com tamanha paixão e humanidade, continua a ser um farol – talvez um farol doloroso, mas inegavelmente necessário.




