O Menino Atrás da Porta

Há filmes que nos agarram pela garganta desde o primeiro minuto, e O Menino Atrás da Porta (The Boy Behind The Door) é, sem dúvida, um deles. Neste exato momento, enquanto escrevo em 17 de setembro de 2025, ainda sinto a tensão que esse longa-metragem de terror me causou. Lançado originalmente em 2020 e chegando às plataformas digitais brasileiras em 16 de fevereiro de 2022, este thriller implacável, dirigido e escrito pela dupla David Charbonier e Justin Powell, é uma aula de como construir suspense com poucos recursos e um conceito aterrorizante.

A premissa é simples, mas desoladora: o jovem Bobby (Lonnie Chavis) e seu melhor amigo, Kevin (Ezra Dewey), estão a caminho do treino de baseball quando seus mundos são virados do avesso. Eles são sequestrados, arrastados para uma casa isolada no meio do nada, e a única coisa que separa a vida deles de se tornarem mais um nome na longa e triste lista de crianças desaparecidas é a astúcia de Bobby e a resiliência de sua amizade. Sem chance de conseguir ajuda e a quilômetros de casa, Bobby precisa orquestrar o resgate de Kevin e encontrar uma saída antes que seja tarde demais. É uma corrida contra o tempo onde a inocência se choca brutalmente com a depravação humana, e cada segundo é um martelo batendo na nossa ansiedade.

O que mais impressiona – e aqui concordo plenamente com trechos de críticas que tive a oportunidade de ler, que apontavam o desempenho dos jovens atores como um dos pontos altos do filme – é a performance de Lonnie Chavis e Ezra Dewey. Chavis, como Bobby, entrega uma atuação que beira o extraordinário para sua idade. A câmera o persegue em cada canto escuro, em cada suspiro abafado, e ele nos carrega com uma mistura potente de medo, determinação e desespero infantil. É uma responsabilidade gigantesca para um ator tão jovem, e ele a abraça com uma convicção que faz o público roer as unhas. Ezra Dewey, como Kevin, mesmo com menos tempo de tela para agir ativamente, personifica a vulnerabilidade e serve como o gatilho emocional para todas as ações de Bobby. A química entre os dois é palpável, e é ela que dá ao filme seu coração pulsante e seu senso de urgência.

David Charbonier e Justin Powell, que assinam tanto a direção quanto o roteiro, demonstram uma maestria admirável na arte de construir suspense. Eles não se apressam, mas também não perdem tempo. Cada cena é meticulosamente planejada para maximizar a tensão e a sensação de claustrofobia. A casa, por si só, torna-se um personagem, um labirinto de horrores potenciais, com sombras espreitando em cada esquina. A cinematografia é sombria e opressiva, e a trilha sonora, quando presente, é um sussurro inquietante que amplifica o perigo iminente. Há momentos em que o filme parece flertar com clichês do gênero, é verdade, e talvez uma ou outra decisão dos personagens adultos pareça convenientemente mal-sucedida, como as “coisinhas mais ou menos” que alguns críticos podem ter sentido. Mas, honestamente, esses são pormenores que mal arranham a superfície da experiência imersiva que o filme proporciona.

Atributo Detalhe
Diretores David Charbonier, Justin Powell
Roteiristas David Charbonier, Justin Powell
Produtores Ryan Lewis, Ryan Scaringe, John Hermann, Rick Rosenthal
Elenco Principal Lonnie Chavis, Ezra Dewey, Kristin Bauer, Scott Michael Foster, Micah A. Hauptman
Gênero Terror
Ano de Lançamento 2020
Produtoras Kinogo Pictures, Whitewater Films

Os temas centrais de O Menino Atrás da Porta são a resiliência infantil, a força inabalável da amizade e o lado mais sombrio e perturbador da natureza humana. O filme nos força a confrontar a terrível realidade de que o mal pode espreitar em qualquer lugar, e que a inocência é muitas vezes seu alvo mais vulnerável. Mas, ao mesmo tempo, celebra a coragem e a capacidade de superação. Bobby não é um herói de ação treinado; ele é uma criança agindo por instinto, movido por um amor profundo pelo amigo. E é exatamente isso que o torna tão cativante e crível.

Entre os pontos fortes, destaco a direção habilidosa que mantém o ritmo acelerado e a tensão em níveis estratosféricos. Os sustos são bem construídos, nunca gratuitos, e a atmosfera de perigo é constante. O roteiro, apesar de alguns pequenos deslizes, é inteligente ao colocar os protagonistas em situações de quase descoberta, elevando a aposta a cada reviravolta. E, claro, as atuações dos jovens atores são o pilar que sustenta toda a narrativa, injetando uma autenticidade crucial na história. Se há fraquezas, elas são poucas e, para mim, facilmente perdoáveis. Talvez a motivação de alguns antagonistas pudesse ser mais explorada – Ms. Burton (Kristin Bauer) e The Creep (Micah A. Hauptman) são eficientes em seu papel de ameaça, mas permanecem um tanto unidimensionais, figuras mais arquetípicas do mal. O Oficial Steward (Scott Michael Foster) é uma peça importante no quebra-cabeça, mas sua interação poderia ter tido um pouco mais de peso emocional. No entanto, o foco do filme está inegavelmente nos meninos, e nesse aspecto, ele brilha.

Mais de três anos após sua estreia global e quase três anos e meio após sua chegada ao Brasil, O Menino Atrás da Porta continua a ser uma experiência visceral e impactante para os fãs de terror e suspense. É o tipo de filme que nos faz questionar até onde iríamos para proteger aqueles que amamos. Se você procura um longa-metragem que o mantenha à beira do assento, com o coração acelerado e a respiração suspensa, este é um título que você não pode perder. É uma recomendação calorosa para quem aprecia um suspense psicológico bem executado, que usa o horror não apenas para assustar, mas para explorar a profundidade da bravura humana diante do impensável. Prepare-se para uma viagem angustiante, mas recompensadora.

Publicidade