A gente vive numa era onde a linha entre a fama e a infâmia é tão fina que mal dá pra ver. Um dia, você é o rosto num meme que o mundo adora; no outro, pode ser a manchete de um crime que o mesmo mundo condena. É essa montanha-russa vertiginosa, esse abismo entre o que a internet constrói e o que a realidade desmantela, que me puxou para O Mochileiro Kai: Herói ou Assassino?. Quando a Colette Camden nos convida para revisitar a história de Caleb Lawrence McGillvary, o Kai, não é apenas para nos apresentar mais um documentário de true crime; é para nos fazer questionar a nós mesmos, a nossa sede por heróis instantâneos e a velocidade com que jogamos pedras.
Lembro-me bem, há uns bons dois anos, de como a internet explodiu com o “hitchhiker with a hatchet” – o mochileiro com um machado. De repente, aquele rosto peculiar, com seu gorro de lã e olhos cheios de histórias, estava em todo lugar. Ele era o nomad carismático que, com um ato de bravura inesperado, se tornou o improvável salvador. O vídeo dele, contando sua versão de como salvou uma mulher de um ataque brutal, viralizou como um incêndio em campo seco. A internet, aquela máquina de emoções rápidas, proclamou-o herói. Ele era a personificação do “zero to hero”, o cara que saiu do nada para o panteão dos queridinhos digitais. A gente aplaudia, ria com ele, via a autenticidade rebelde que tanto nos falta em tempos de filtros e poses perfeitas. Quem não se sentiu um pouquinho atraído por essa figura tão fora da curva, tão… livre?
Mas a vida, e a internet, têm um jeito particular de virar o roteiro de ponta-cabeça. ‘O Mochileiro Kai’ não se contenta em nos mostrar a ascensão vertiginosa; ele, com uma frieza quase clínica, nos arrasta para a queda, para o momento em que o herói viral vira o alvo da mesma multidão que o celebrou. A diretora Colette Camden, também roteirista, tem a sensibilidade de não apressar esse processo, permitindo que a complexidade de Kai respire. Ela nos apresenta os pequenos tremores na voz dos entrevistados – Jessob Reisbeck, o âncora que primeiro o entrevistou e viu de perto a máquina da fama começar a girar; Terry Woods, o cinegrafista, cujas lentes capturaram a figura magnética antes que o brilho se tornasse uma sombra; até mesmo Brad Mulcahy, da equipe de pesquisa do Jimmy Kimmel, e Lisa Samsky, a gerente de marca de reality shows, que representam a indústria que tentou empacotar e vender Kai. Cada um deles, com suas recordações e perspectivas, adiciona uma pincelada à tela, pintando um retrato que está longe de ser em preto e branco.
O filme faz um trabalho primoroso em não ditar uma verdade. Em vez de dizer que Kai era um mistério, ele mostra o nó na garganta de quem tentava entendê-lo, a ambivalência nas palavras de quem o apoiou e a perplexidade de quem o viu mudar. A Colette não nos joga fatos secos; ela nos faz sentir a vertigem da fama, a euforia do reconhecimento e, depois, o golpe da desilusão. Ela usa os próprios vídeos de Kai, as notícias da época, os depoimentos de pessoas que o cruzaram, para construir um mosaico que é tanto fascinante quanto perturbador. Não é sobre saber se ele fez ou não o que foi acusado; é sobre como ele foi moldado – e desfigurado – pela narrativa que a sociedade e a internet construíram ao seu redor.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretora | Colette Camden |
| Roteirista | Colette Camden |
| Produtor | Suzanne Mitchell |
| Elenco Principal | Caleb Lawrence McGillvary, Jessob Reisbeck, Terry Woods, Brad Mulcahy, Lisa Samsky |
| Gênero | Documentário, Crime |
| Ano de Lançamento | 2023 |
| Produtora | RAW |
A beleza desse documentário reside justamente em sua capacidade de nos fazer duvidar. Em um momento, a gente assiste a Kai, com seus discursos erráticos, mas cheios de uma lógica própria, e pensamos: “ele é só um espírito livre, um sonhador incompreendido”. No momento seguinte, somos confrontados com a realidade brutal das acusações, e a imagem do herói se desfaz em mil pedacinhos, como um castelo de areia levado pela maré. É essa dança entre a empatia e o repúdio que nos mantém grudados na tela. O Mochileiro Kai: Herói ou Assassino? não é um filme que nos dá respostas fáceis. Pelo contrário, ele nos oferece um espelho, nos forçando a encarar nossa própria cumplicidade na criação e destruição de ícones efêmeros. O filme, produzido pela RAW, nos deixa com um desconforto persistente, a sensação de que, talvez, todos nós, com nossos likes e compartilhamentos, temos uma pequena parte na tragédia desse homem.
E é por isso que, mais de dois anos após sua estreia, este filme ainda ressoa. Ele é um lembrete contundente de que a verdade, especialmente na era digital, é uma criatura escorregadia, mutável. E que, por trás de cada manchete viral, de cada meme, existe uma vida, uma complexidade humana que raramente cabe nos limites de um post de Facebook. Kai pode ser apenas um nome na história do true crime para alguns, mas para mim, e para qualquer um que assista a este documentário impecável, ele se torna um símbolo poderoso da nossa busca por narrativas e da nossa própria fragilidade diante do escrutínio público implacável.




