A Eterna Dança Entre o Coração e o Relógio: Uma Reflexão Sobre O Tempo Que Nos Resta
Acabei de sair da sala escura, e a sensação que me invade não é de alívio, mas de uma melancolia agridoce que se instalou bem fundo, como uma melodia antiga que você pensou ter esquecido. Sabe, a gente passa a vida correndo atrás de minutos, lamentando horas perdidas, e de repente, um filme como O Tempo Que Nos Resta, que chegou aos cinemas brasileiros faz apenas dois dias, vem e te vira do avesso, te forçando a confrontar a própria noção de tempo – e, por extensão, a de amor e mortalidade.
Por que escrever sobre isso? Porque Adolfo Alix Jr. nos entrega uma obra que não é só uma história de amor proibido; é um espelho que reflete as nossas maiores vulnerabilidades e desejos. A proposta, à primeira vista, pode parecer familiar – um amor entre o efêmero e o eterno, um segredo sombrio à espreita –, mas a execução… Ah, a execução é onde a magia reside, e ela me pegou de um jeito que poucas produções conseguem.
O filme se desdobra através das memórias de Lilia (interpretada com uma dignidade frágil por Bing Pimentel), uma mulher idosa cujos olhos carregam o peso de décadas, o brilho das alegrias passadas e a névoa das perdas. Após uma série de mortes inexplicáveis – que de alguma forma parecem tocar seu passado –, ela se vê compelida a revisitar seu romance proibido com Matias (Carlo Aquino), um homem cujo charme é tão magnético quanto o segredo que ele guarda. E aqui, caro leitor, é onde a complexidade humana, mesmo diante do sobrenatural, se manifesta.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Adolfo Alix Jr. |
| Elenco Principal | Carlo Aquino, Bing Pimentel, Beauty Gonzalez, Jasmine Curtis-Smith, Erin Rose Espiritu |
| Gênero | Drama, Romance, Fantasia |
| Ano de Lançamento | 2025 |
| Produtora | Black Cap Pictures |
A genialidade de Alix Jr. está em não nos dar respostas fáceis. O segredo do casal não é apenas um artifício de roteiro, mas o cerne de uma existência compartilhada que, por mais apaixonada que tenha sido, estava condenada à sombra. Matias, com sua imortalidade – e sim, as pistas são claras o suficiente para nos levar a crer que estamos falando de um ser vampírico, um daqueles que habitam as frestas da noite e da eternidade –, é um ser de paradoxos. Carlo Aquino consegue transmitir uma mistura hipnotizante de ternura protetora e uma aura de perigo latente. Você vê o amor em seus olhos, mas também a solidão de quem já viu demais, perdeu demais, e continuará a perder. É uma performance que te faz questionar: será que a imortalidade é uma bênção ou a mais cruel das maldições quando se ama um mortal?
As versões mais jovens de Lilia são igualmente fascinantes. Erin Rose Espiritu, como a jovem Lilia, nos mostra a faísca inicial, a inocência caindo de cabeça em algo maior que ela. E Jasmine Curtis-Smith, como a Lilia em meia-idade, encapsula a paixão madura, mas também o fardo crescente de um amor que desafia as leis da natureza. É como ver as camadas de uma cebola sendo cuidadosamente descascadas, cada uma revelando uma dor e uma beleza distintas. A transição entre essas atrizes é tão fluida que você realmente sente que está testemunhando a vida de uma mesma alma através das eras, e essa é uma conquista notável da direção e do elenco.
A Black Cap Pictures, com a direção de Adolfo Alix Jr., não se limitou a criar um romance gótico; eles forjaram um drama denso, onde a fantasia serve como catalisador para explorar temas profundamente humanos: a memória, o luto, a escolha, o sacrifício. Não há vampiros brilhantes sob o sol aqui, nem corridas em alta velocidade. O terror vem da lentidão inevitável do tempo para um, e da ausência dele para o outro. É o medo de perder, o medo de ser esquecido, o medo de ser o único a restar quando todos os que você amou já se foram.
Pense comigo: como se vive uma vida, sabendo que cada beijo é um adeus em potencial? Que cada riso é um eco de algo que um dia será apenas uma lembrança para um, e uma eternidade de solidão para outro? O filme não te conta, ele te mostra. Mostra nas mãos trêmulas de Lilia enquanto ela segura uma foto antiga, no silêncio pesado entre Matias e ela, no olhar distante que a velhice carrega. É um estudo de contrastes: a pele enrugada contra a juventude eterna, o tic-tac impiedoso do relógio contra o silêncio atemporal.
E o segredo? Ah, esse segredo é uma personagem em si, sussurrando nas sombras de cada cena, uma espada invisível pendurada sobre a cabeça do casal. Ele não é apenas a natureza de Matias; é a consequência de suas escolhas, os rastros que ele, involuntariamente ou não, deixa para trás, e que agora, na velhice de Lilia, ameaçam vir à tona. Beauty Gonzalez, no papel de Isabelle, surge como uma peça crucial nesse tabuleiro de verdades ocultas, e sua presença promete desvendar ainda mais as camadas de mistério que envolvem a história de Matias e Lilia.
O Tempo Que Nos Resta não é para quem busca um entretenimento leve de sexta-feira à noite. É para quem não tem medo de mergulhar nas profundezas da alma humana (e talvez, de algo além dela). É um filme que te faz pensar muito depois que os créditos sobem, te questionando sobre o valor de cada momento, sobre a natureza do amor que transcende a vida e a morte, e sobre o peso dos segredos que carregamos. E você, tá pronto para encarar esse tempo que nos resta? Porque eu, depois de hoje, sinto que o meu ganhou um significado um pouco diferente.




