One & Two

Publicidade
Assista agora — abra na plataforma parceira Assista agora

A cinematografia de Andrew Droz Palermo em One & Two, lançado em 14 de agosto de 2015, se estabelece como uma meditação melancólica e penetrante sobre a opressão familiar e o despertar da autonomia. A obra, que transita entre o thriller, o drama e a fantasia, oferece uma perspectiva singular sobre a busca pela liberdade em um ambiente de isolamento brutal. Longe de ser meramente uma fábula sobre habilidades extraordinárias, o filme utiliza a premissa fantástica como uma poderosa metáfora para a rebelião juvenil e a descoberta da identidade em face de um controle paterno sufocante.

A tese central que sustenta One & Two reside na ideia de que os poderes sobrenaturais manifestados por Zac (Timothée Chalamet) e Eva (Kiernan Shipka) não são apenas um artifício de gênero, mas uma encarnação visceral do desejo inato de quebrar correntes e transcender limites. A fazenda isolada não é apenas um cenário, mas uma prisão, e a capacidade dos irmãos de se teletransportar simboliza a urgência da fuga, tanto física quanto psicológica, de um lar dominado pela tirania de Daniel (Grant Bowler), o pai abusivo, e pela presença silenciosa da mãe doente (Elizabeth Reaser).

Andrew Droz Palermo, conhecido por sua sensibilidade visual em obras como “Rich Hill” (co-dirigido) e “A Dark Song” (como diretor de fotografia), demonstra em One & Two uma direção contida e atmosférica que privilegia a linguagem visual sobre o diálogo. Sua habilidade em construir tensão a partir do silêncio e do enquadramento é notável. O estilo de Palermo aqui é marcado por uma estética austera e paisagens desoladas que sublinham o isolamento dos personagens, enquanto a câmera muitas vezes se aproxima para capturar a microexpressão de medo, anseio e, eventualmente, desafio nos rostos dos jovens protagonistas.

Tecnicamente, o filme é uma aula de como a mise-en-scène pode elevar uma narrativa. A fotografia, a cargo do próprio Palermo, emprega uma paleta de cores dessaturadas, dominada por tons terrosos e azul-acinzentados, que infunde a tela com uma sensação de melancolia e confinamento. Planos abertos da vastidão inóspita contrastam com enquadramentos apertados dentro da casa, forçando o espectador a sentir a claustrofobia imposta pelo pai. A montagem, assinada por David Lowery, adota um ritmo deliberadamente lento, permitindo que a tensão se acumule gradualmente, pontuado por cortes bruscos que ressaltam momentos de violência ou a súbita manifestação dos poderes. Na atuação, a química entre Chalamet e Shipka é o pilar emocional do filme. A vulnerabilidade silenciosa de Zac e a efervescência contida de Eva são palpáveis; em uma cena crucial onde Eva tenta atravessar o muro da propriedade pela primeira vez, a ânsia em seus olhos e o desespero por liberdade são transmitidos sem uma única palavra, apenas pela intensidade de sua expressão e o anseio em seu corpo. Grant Bowler entrega um desempenho implacável como Daniel, sua presença imponente e seu controle tirânico são mais perturbadores em sua sutileza do que em qualquer explosão de raiva.

Direção Andrew Droz Palermo
Roteiro Andrew Droz Palermo, Neima Shahdadi
Elenco Principal Timothée Chalamet (Zac), Kiernan Shipka (Eva), Grant Bowler (Daniel), Elizabeth Reaser (Elizabeth), Rayven Symone Ferrell (Danny)
Gêneros Thriller, Drama, Fantasia
Lançamento 14/08/2015
Produção Bow + Arrow Entertainment, Protagonist Pictures

Os temas centrais de One & Two são multifacetados. O isolamento forçado não é apenas geográfico, mas emocional, com a fazenda atuando como um microcosmo da mente oprimida. A relação de abuso e controle exercida por Daniel sobre seus filhos é o motor primário da narrativa, um ciclo vicioso de medo e obediência. Em contraste, a relação entre Zac e Eva, de profunda lealdade e dependência mútua, oferece um vislumbre de humanidade e esperança. A manifestação das habilidades sobre-humanas funciona como o ponto de virada, transformando a passividade em agência. O filme não apenas discute esses temas; ele os encena vividamente. Por exemplo, a cena em que Zac, ainda hesitante, usa seu poder para recuperar um objeto para Eva, sublinha a solidariedade dos irmãos e o uso incipiente de seus dons como ferramentas de resistência contra o regime paterno.

Em termos de nicho, One & Two se posiciona como um Thriller Psicológico de Drama Familiar com Elementos Sobrenaturais e Tema de Isolamento. O filme se alinha com obras que exploram a psique de crianças ou adolescentes confinados em ambientes opressores, onde a manifestação de poderes extraordinários ou a busca desesperada pela liberdade se tornam metáforas para a emancipação e a resiliência humana diante do abuso e da reclusão. Nesse contexto, ele pode ser comparado a:

1. “The Innocents” (De Uskyldige, 2021), de Eskil Vogt: Este filme norueguês foca em crianças que desenvolvem habilidades telepáticas e telecinéticas em um complexo de apartamentos isolado, explorando o lado sombrio da infância e os perigos do poder. Compartilha com One & Two a premissa de jovens com poderes emergentes em um ambiente contido, onde as regras são subvertidas pela anomalia. O enfoque cultural, em ambos, está na complexidade da infância e na moralidade do poder em ambientes isolados.
2. “Room” (2015), de Lenny Abrahamson: Embora sem elementos sobrenaturais, este drama intensamente claustrofóbico retrata uma mãe e seu filho mantidos em cativeiro, com o filho crescendo em um mundo completamente isolado. A jornada de Jack para entender o “mundo real” e a luta de sua mãe por liberdade ressoam profundamente com o anseio de Zac e Eva por uma vida além dos limites da fazenda e da opressão paterna. O enfoque cultural/identitário aqui seria a luta pela identidade e autonomia em condições de extrema privação.

One & Two é uma obra cinematográfica que merece ser apreciada por sua profundidade temática e sua execução artística. Não é um filme para o público que busca ação sobrenatural frenética, mas sim para aqueles que valorizam dramas psicológicos de ritmo cadenciado, que usam o elemento fantástico para dissecar as complexidades da condição humana. É uma experiência imersiva sobre a luta pela autodeterminação, a resiliência do espírito infantil e as consequências devastadoras do controle parental. Sua relevância perdura como um lembrete vívido da busca universal por liberdade, mesmo nas circunstâncias mais confinantes. O filme é um testamento à capacidade de Andrew Droz Palermo de tecer uma narrativa densa e emocionante a partir de uma premissa aparentemente simples, entregando um estudo de personagem que ressoa muito além de seus créditos finais.