O cinema documental de Wim Wenders frequentemente se debruça sobre a essência da condição humana e a busca por significado em um mundo em constante mudança. Em Papa Francisco: Um Homem de Palavra, lançado em 2018, Wenders transcende o mero retrato biográfico para construir uma ponte direta entre a figura do Sumo Pontífice e o espectador, articulando uma tese central poderosa: o Papa Francisco emerge não apenas como um líder religioso, mas como uma rara bússola moral em uma era de profundo ceticismo, cuja “palavra” consistente e empática desafia as convenções, redefinindo o papel da liderança espiritual global ao confrontar diretamente as urgências sociais e éticas contemporâneas.
A evolução de Wenders como diretor é palpável neste trabalho. Conhecido por sua abordagem contemplativa e humanista em filmes como “Buena Vista Social Club” ou “Pina“, ele adota aqui um estilo quase confessional. O documentário se destaca por sua audácia formal: grande parte do filme é composta por longos segmentos onde o Papa Francisco olha diretamente para a câmera, quebrando a quarta parede e estabelecendo um diálogo íntimo com o público. Essa escolha estilística não é apenas um artifício; é a personificação da tese central, permitindo que a “palavra” do Papa ressoe sem filtros, criando uma conexão visceral que é o cerne da experiência do filme.
Do ponto de vista técnico, a maestria de Wenders é evidente na sua mise-en-scène. A fotografia, predominantemente em cores vivas para as cenas contemporâneas do Papa, alterna-se com um uso evocativo de preto e branco para as sequências dramatizadas de São Francisco de Assis (interpretado por Ignazio Oliva), sublinhando a continuidade da missão franciscana através dos séculos. A câmera muitas vezes se detém em closes no rosto do Papa, capturando a rugosidade de sua pele, o brilho em seus olhos e as pausas ponderadas antes de cada resposta, revelando uma sinceridade e uma vulnerabilidade que desarmam. A montagem, coesa e temática, orquestrada por Wim Wenders e David Rosier, não segue uma cronologia estrita, mas agrupa as reflexões do Papa por tópicos – como imigração, ecologia, desigualdade – criando um fluxo narrativo que enfatiza a consistência de sua mensagem ao longo de suas viagens espirituais. O design de som, por sua vez, prioriza a clareza da voz do Papa, muitas vezes isolando suas palavras para dar-lhes proeminência sobre o ruído ambiente, reforçando a ideia de que o cerne do filme reside no poder de seu discurso. A “atuação” do próprio Papa Francisco, embora não seja uma performance teatral, é uma lição de presença autêntica; seu olhar direto e sua linguagem corporal transmitem convicção e empatia que transcendem barreiras linguísticas e culturais.
O filme discute temas cruciais que ressoam globalmente. A questão da imigração é abordada com particular veemência, como quando o Papa visita campos de refugiados, e sua voz se torna um clamor por compaixão e solidariedade, desafiando narrativas políticas desumanizadoras. A ecologia, tema central da encíclica “Laudato Si'”, é visualmente reforçada por imagens de paisagens naturais e urbanas em contraste, enquanto o Papa adverte sobre a necessidade urgente de proteger a “casa comum”. A desigualdade econômica e o materialismo são criticados em cenas que contrastam a opulência com a pobreza extrema, sublinhando sua visão de uma economia que sirva ao ser humano, e não o contrário. Seu posicionamento sobre a justiça social e o papel da família, embora ancorado na doutrina, é sempre permeado por um chamado à empatia e à escuta, revelando um líder disposto a se engajar com a complexidade do mundo moderno.
| Direção | Wim Wenders |
| Roteiro | Wim Wenders, David Rosier |
| Elenco Principal | Pope Francis (Self), Ignazio Oliva (Francesco d’Assisi), Sister María Eufemia Goycoechea (Self), Joe Biden (Self – Former Vice President), Daniele De Angelis (Friar) |
| Gêneros | Documentário |
| Lançamento | 18/05/2018 |
| Produção | The Palindrome, Centro Televisivo Vaticano, Célestes Images, Solares Fondazione delle Arti, Decia Films, Fondazione Solares Suisse, Focus Features, Road Movies |
No nicho de documentários biográficos/observacionais focados em líderes espirituais com forte engajamento social, Papa Francisco: Um Homem de Palavra encontra ecos em produções que exploram a intersecção entre fé, humanidade e ativismo. Comparável a “O Sal da Terra” (2014), também dirigido por Wim Wenders em parceria com Juliano Ribeiro Salgado, o filme compartilha a abordagem de Wenders de acompanhar uma figura que, através de sua missão (no caso de Salgado, a fotografia humanitária e ambiental), provoca profunda reflexão sobre a condição humana e o impacto no planeta. Ambos os filmes de Wenders focam na jornada de um indivíduo que testemunha e tenta intervir nas grandes questões globais. Além disso, as semelhanças se estendem a “Dalai Lama Renaissance” (2007), de Khashyar Darvich, que também centra sua narrativa em um líder espiritual global e seu diálogo com pensadores ocidentais em busca de soluções para problemas mundiais. Embora os estilos possam divergir, todos esses filmes compartilham o tema central de um guia espiritual engajado com as crises contemporâneas, buscando respostas humanas e éticas. O enfoque cultural e identitário reside na representação de lideranças espirituais transculturais que promovem o diálogo inter-religioso e intercultural em prol da paz e da justiça social.
Um momento único e inesquecível do filme é, sem dúvida, quando o Papa Francisco, ao falar sobre um tema particularmente sensível, fixa seu olhar diretamente na lente da câmera por vários segundos, sem desviar. É uma pausa que transcende o formato documental, tornando o espectador não um observador passivo, mas um interlocutor direto. Esse contato visual quebra a barreira entre figura pública e indivíduo, amplificando o impacto de sua mensagem, tornando-a pessoal e inegavelmente presente. É nesse olhar direto que a essência de “Um Homem de Palavra” se manifesta.
Papa Francisco: Um Homem de Palavra é um documento cinematográfico essencial, não apenas para os seguidores da fé católica, mas para qualquer pessoa interessada em liderança ética, justiça social e os desafios do século XXI. Wenders oferece um acesso privilegiado a um dos líderes mais influentes do nosso tempo, expondo a consistência de sua visão e a profundidade de seu compromisso. O filme reitera a urgência de ouvir vozes de integridade e conclui com a inegável percepção de que, em meio ao ruído e à desconfiança, o Papa Francisco se mantém como uma figura cuja palavra carrega um peso moral intransigente e uma esperança genuína.




