Lançado em 2017,Power Rangers,dirigido por Dean Israelite,não se contenta em ser apenas um revival da clássica franquia infantil. A obra se estabelece como um reinício ambicioso que visa ancorar a fantasia colorida em uma realidade mais palpável,explorando as complexidades daadolescênciae a formação daidentidadeem um contexto extraordinário. Longe de ser um mero exercício denostalgia,o filme articula uma tese central:a verdadeira força dos Power Rangers reside não em seus poderes alienígenas ou Zords imponentes,mas na vulnerabilidade e na conexão humana de seus jovens protagonistas,que precisam superar suas próprias inseguranças antes de sequer pensar em salvar o mundo.
A direção de Israelite,conhecido por Projeto Almanac,demonstra uma transição notável. Enquanto seu trabalho anterior explorava a ficção científica através da lente do found footage,em Power Rangers ele adota uma estética mais convencional,porém com um tom decididamente mais sério e contido nos dois primeiros atos. O cineasta prioriza a jornada emocional dos cinco adolescentes,utilizando uma paleta de cores predominantemente dessaturada em Angel Grove antes do surgimento dos Power Coins. Essa escolha visual cria um contraste nítido com o brilho saturado e quase psicodélico que irrompe nos momentos de descoberta dos poderes,simbolizando a transformação não apenas dos personagens,mas do próprio mundo que habitam. A abordagem inicial,que se estende por mais de uma hora de filme,dedica-se à construção de cada Ranger,apresentando suas lutas pessoais com uma profundidade que raramente se via na série original.
Tecnicamente,o filme se destaca pela sua cinematografia e edição que reforçam a narrativa de amadurecimento. A fotografia de Matthew J. Lloyd (também diretor de fotografia em Demolidor da Netflix) emprega uma iluminação orgânica e naturalista,especialmente nas cenas ambientadas na pedreira,local do primeiro contato. Essa escolha confere um realismo tátil ao ambiente,contrastando com os efeitos visuais que virão. A edição,a cargo de Martin Bernfeld,adota um ritmo deliberadamente lento no início,permitindo que a plateia absorva a angústia e o isolamento de cada personagem. Os cortes rápidos e amontagemdinâmica são reservados para as sequências de treinamento e ação,construindo uma progressão gradual da tensão e do espetáculo,culminando em uma batalha final que,embora grandiosa,ainda mantém um foco na interação dosheróis.
Os roteiristas,com John Gatins recebendo o crédito final pela história,tecem uma narrativa que aborda temas centrais de alienação,bullying e a busca por pertencimento. Jason (Dacre Montgomery),o ex-quarterback em desgraça;Billy (RJ Cyler),o prodígio socialmente desajeitado e alvo de bullying;Zack (Ludi Lin),o rebelde com responsabilidades familiares;Kimberly (Naomi Scott),a garota popular com um segredo;e Trini (Becky G),a forasteira que se sente diferente. A cena do acampamento,onde os cinco compartilham suas vulnerabilidades e medos em torno de uma fogueira improvisada,é o momento mais potente do filme. Billy revela a dor do bullying,Trini expressa sua solidão e a sensação de ser “diferente”(um aceno sutil à sua identidade LGBTQ+,um marco na representação da franquia),e Jason confessa suas frustrações. Essa sequência,desprovida de ação e focada puramente naperformancedo elenco e no desenvolvimento dos personagens,funciona como o verdadeiro catalisador para a formação da equipe,onde a confiança e a amizade se solidificam antes que qualquer traje colorido seja invocado. Elizabeth Banks,como a vilã Rita Repulsa,adota uma performance que mesclapsicosee ameaça genuína,distanciando-se da caricatura e adicionando um elemento de terror que eleva o conflito.
| Direção | Dean Israelite |
| Roteiro | Matt Sazama,Michele Mulroney,Kieran Mulroney,Burk Sharpless,John Gatins |
| Elenco Principal | Dacre Montgomery (Jason Lee Scott / The Red Ranger),RJ Cyler (Billy Cranston / The Blue Ranger),Ludi Lin (Zack Taylor / The Black Ranger),Naomi Scott (Kimberly Hart / The Pink Ranger),Becky G (Trini / The Yellow Ranger) |
| Gêneros | Ação,Aventura,Ficção científica |
| Lançamento | 23/03/2017 |
| Produção | Lionsgate,Saban Brands,Saban Films,Temple Hill Entertainment,TIK Films |
Dentro do nicho de reboots de franquias juvenis com foco em super-heróis e amadurecimento,Power Rangers (2017) se situa como uma tentativa de modernizar o legado de uma forma que dialogue com as sensibilidades contemporâneas. Uma comparação inevitável é com a série de TV original,Mighty Morphin Power Rangers,que nos anos 90 era um espetáculo mais leve e focado em mensagens morais para crianças,com personagens mais unidimensionais e conflitos simplificados. O filme de Israelite,em contrapartida,mergulha nas complexidades da angústia adolescente e na diversidade,oferecendo um subtexto sobre a aceitação e a força encontrada nas diferenças individuais e coletivas. Outra obra que ressoa tematicamente éX-Men:Primeira Classe(2011). Ambos os filmes explorama origemde uma equipe de heróis composta por jovens que estão descobrindo seus poderes e lutando com suas identidades em um mundo que não os entende. A formação de um grupo de párias que encontra propósito efamíliaem sua união,superando problemas pessoais,é um elo temático robusto entre as duas produções,com um elenco que reflete uma certa diversidade,seja ela mutante ou étnica,e a busca por aceitação.
Em sua essência,Power Rangers (2017) é um filme que arrisca humanizar seus ícones antes de transformá-los em máquinas de combate. A jornada dos cinco adolescentes de Angel Grove é uma exploração sobre como a força coletiva emerge da superação de vulnerabilidades individuais. A obra se mostra ideal para o público jovem adulto que cresceu com a franquia e busca uma reinterpretação mais fundamentada e complexa,assim como para novos espectadores interessados em histórias de super-heróis que priorizam o desenvolvimento de personagens e os temas de autoaceitação e trabalho em equipe. O filme é um lembrete de que,por trás de armaduras e explosões,os maiores superpoderes podem residir na amizade e na capacidade de abraçar quem realmente somos.

