Sabe, de vez em quando, a gente se depara com uma obra que não só assiste, mas que te assiste de volta. Uma dessas experiências que te tira do sofá, sacode suas percepções e te lembra que o mundo é muito maior do que a bolha em que a gente vive. E foi exatamente isso que Professor Polvo fez comigo. Quando o filme estreou lá em 2020 – caramba, já faz um tempinho, né? –, eu, como muitos, achei que seria mais um documentário sobre a vida marinha. Não me entenda mal, adoro um bom doc da natureza, mas algo no burburinho em torno dele parecia prometer mais. E prometeu.
Não é todo dia que um mergulhador, um cineasta da natureza chamado Craig Foster, decide abandonar a agitação da vida moderna para mergulhar todos os dias na fria floresta de algas da África do Sul, ali na costa do Cabo Ocidental, nas águas do Atlântico. Já pensou? Essa dedicação diária, quase um ritual de purificação, é o ponto de partida de uma das amizades mais improváveis e tocantes que eu já vi na tela. A gente vê a câmera seguindo Craig, mas, na verdade, somos nós que o seguimos, descendo para um mundo azul-esverdeado onde a luz dança entre as algas gigantes. É nesse santuário subaquático que ele encontra o “professor” em questão: uma jovem polvo.
O que se desenrola, sob a direção sensível de James Reed e Philippa Ehrlich, que também assinam o roteiro, é uma aula sobre paciência, observação e, acima de tudo, conexão. Não se trata apenas de filmar a vida selvagem; Craig Foster, que também produz o filme através de The Sea Change Project junto com Off the Fence, mergulha de cabeça, sem equipamento de mergulho, numa relação íntima com essa criatura fascinante. Você vê o Craig estendendo a mão, não para tocar, mas para convidar. E o polvo, com sua inteligência e curiosidade palpáveis, responde a esse convite. A gente acompanha a rotina do animal, desde suas incríveis táticas de camuflagem até seus momentos de vulnerabilidade, como quando um tubarão a persegue. É de tirar o fôlego e, ao mesmo tempo, de cortar o coração. Aquele mergulho diário dele não é só uma busca por imagens; é uma busca por si mesmo, por um sentido, e ele encontra isso na interação com essa criatura de oito braços.
Essa dança de espécies é mostrada com uma riqueza de detalhes sensoriais que nos transporta para dentro d”água. Você quase sente a frieza da água, o cheiro de sal. Os movimentos suaves da floresta de algas, os pequenos organismos que a habitam, tudo é filmado com uma delicadeza que beira o poético. E as expressões do polvo? É impressionante como a gente consegue ver uma personalidade, um ser pensante, através dos olhos grandes e expressivos. É ali que a gente percebe que o filme transcende o gênero de documentário de natureza; ele vira uma experiência pessoal, quase espiritual. Ele nos convida a repensar nossa própria arrogância como espécie, a achar beleza e sabedoria em formas de vida tão diferentes das nossas.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretores | James Reed, Philippa Ehrlich |
| Roteiristas | Philippa Ehrlich, James Reed |
| Produtor | Craig Foster |
| Elenco Principal | Craig Foster, Tom Foster |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2020 |
| Produtoras | The Sea Change Project, Off the Fence |
Quando penso nas palavras-chave – mergulho, polvo, inteligência, vida marinha, comportamento animal – Professor Polvo não só aborda todas elas, mas as eleva. Não é só sobre um polvo inteligente; é sobre a relação com essa inteligência. Não é só sobre a África do Sul; é sobre o pequeno ecossistema dentro da vasta imensidão do Atlântico que Craig escolheu para sua redenção. E sim, pode ser que para alguns essa jornada mais profunda, mais introspectiva, talvez soe um pouco… intensa demais, com sua dose de contemplação filosófica. Mas, para mim, é exatamente aí que reside a força do filme: na sua coragem de ir além da superfície.
O mais interessante é ver como o filho de Craig, Tom Foster, também se engaja nessa jornada, reforçando a ideia de que a conexão com a natureza é um legado, algo que se passa adiante. A estreia do filme no Brasil, em setembro de 2020, foi um presente, uma janela para um mundo que a maioria de nós nem sequer imagina existir, tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante.
Para concluir, Professor Polvo é uma daquelas histórias que reverberam na alma muito depois de os créditos rolarem. Não é apenas um documentário sobre um polvo; é uma meditação sobre a nossa capacidade de amar, de nos conectar e de aprender com o mundo natural. É um lembrete sutil e poderoso de que, às vezes, os maiores professores não vêm em forma humana, mas de um lugar onde a comunicação se dá em silêncio, através do olhar e da pura existência. E isso, meu caro, é uma lição que vale a pena levar para a vida toda.




