Reparação: Uma Ferida Aberta que Insiste em Sangrar
Ah, o Brasil e sua mania de varrer a poeira para debaixo do tapete da história! Falar em “reparação” em terras tupiniquins é quase como invocar fantasmas, especialmente quando o tema é um dos capítulos mais sombrios da nossa trajetória: a ditadura militar. Foi com essa premissa instigante que me sentei para revisitar Reparação, o documentário de Daniel Moreno, lançado lá em 2010. E devo dizer que, mesmo quase quinze anos depois – sim, estamos em 17 de setembro de 2025, e o tempo voa, mas certas feridas não cicatrizam –, a obra mantém uma relevância pungente, quase dolorosa.
Quando Reparação estreou no Brasil em 12 de março de 2010, o país vivia um momento político e social um tanto diferente. Havia uma esperança latente de que o debate sobre o passado seria, talvez, mais aberto, menos polarizado. O filme de Moreno se insere nesse contexto como um convite, ou melhor, uma intimação, a olhar para trás e confrontar as consequências do regime autoritário que se instalou por aqui entre 1964 e 1985. A sinopse é direta: o documentário explora as complexas camadas do conceito de reparação no pós-ditadura brasileira, analisando não apenas as compensações financeiras, mas também as reparações morais, históricas e sociais devidas às vítimas e à própria nação. Parece simples, mas a execução, meus caros, é um emaranhado de vozes e verdades que se chocam.
As Vozes e os Silêncios de um Passado Inquieto
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Daniel Moreno |
| Produtor | Leticia Dumas |
| Elenco Principal | Máximo Barro, Fernando Henrique Cardoso, Orlando Lovecchio, Demétrio Magnolli, Marco Antonio Villa |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2010 |
| Produtora | Terranova Filmes |
A grande força de Reparação reside na escolha de seus entrevistados. Daniel Moreno não busca uma falsa neutralidade; ele constrói um painel de perspectivas que, embora não cubra todos os ângulos – o que seria impossível para qualquer documentário –, oferece um panorama robusto da discussão. Vemos nomes como Fernando Henrique Cardoso, que oferece uma visão mais institucional e política da transição; Marco Antonio Villa, com sua análise incisiva e por vezes provocadora; Demétrio Magnolli, que contextualiza historicamente o conceito de reparação; e Máximo Barro, cujos depoimentos pessoais trazem um peso emocional inegável. Orlando Lovecchio também contribui, adicionando camadas à discussão.
O que me impressiona na direção de Moreno é a habilidade de tecer esses depoimentos em uma narrativa coesa. Não é um mosaico de opiniões aleatórias; há uma linha tênue, um roteiro invisível, que guia o espectador pela história da Lei da Anistia, pelas suas lacunas, pelas suas “não-reparações”. O filme questiona: a anistia realmente pacificou o país ou apenas adiou um acerto de contas necessário? A montagem alterna entre os rostos dos entrevistados, arquivos históricos – fotos, jornais da época, imagens em preto e branco que nos puxam para o passado – e o ritmo é cadenciado, permitindo que cada argumento respire, mesmo que seja para nos sufocar com a complexidade do tema.
Porém, e aqui vem o meu ponto de vista mais crítico, sinto que, por vezes, o filme se aproxima perigosamente de uma “câmara de eco”. As vozes que se apresentam são predominantemente as de intelectuais, acadêmicos e figuras políticas que, embora fundamentais, representam uma parcela específica da discussão. Senti falta de mais depoimentos de vítimas diretas menos conhecidas, de familiares que lutam por justiça em silêncio há décadas, de ex-militares que, talvez, pudessem oferecer uma perspectiva do “outro lado” – não para justificar, mas para complexificar a visão da época. Não que Daniel Moreno tenha a obrigação de dar voz a todos, mas a ausência de certas perspectivas pode, para alguns, gerar a sensação de que a narrativa pende para um lado já estabelecido. E é aqui que a persona do crítico emerge: um bom documentário, especialmente sobre tema tão espinhoso, deveria, a meu ver, cutucar todas as colmeias.
A Ferida Aberta: Temas e Mensagens
O grande tema de Reparação, obviamente, é a ditadura militar e as sequelas que ela deixou. Mas, para além da denúncia óbvia, o filme mergulha na essência da palavra que lhe dá título. O que é “reparar”? É pagar uma indenização? É reconhecer o erro publicamente? É punir os culpados? O documentário nos força a confrontar o fato de que, em muitos aspectos, o Brasil falhou em seu processo de reparação. A Lei da Anistia de 1979, tão celebrada, é dissecada como um manto que cobriu crimes hediondos, impedindo a responsabilização de torturadores e assassinos. Essa é uma discussão que, quinze anos após o lançamento do filme, ainda arde. A ideia de que “olhar para frente” significa esquecer o passado é perigosa e Reparação nos lembra disso de forma contundente.
Outra mensagem poderosa é a da memória. O filme é um grito contra o esquecimento forçado. Ele argumenta que a ausência de uma reparação completa e profunda pavimenta o caminho para a repetição de erros. E aqui, como crítico e cidadão, não posso deixar de traçar um paralelo com o Brasil que vivemos hoje, em 2025. As discussões sobre revisionismo histórico, a negação de fatos sobre o período militar, a polarização política que muitas vezes revisita os traumas da ditadura – tudo isso só reafirma a necessidade de obras como a de Moreno. Reparação é um espelho que o Brasil precisa encarar, por mais que a imagem refletida seja desconfortável.
O Veredito de um Coração Inquieto
Os pontos fortes de Reparação são inegáveis: a coragem de Daniel Moreno em revisitar um tema delicado, a profundidade das reflexões propostas pelos entrevistados e a relevância intemporal de sua mensagem. O filme serve como um importante registro histórico e um catalisador para a reflexão crítica. Seu ritmo, embora por vezes didático, é eficaz em guiar o público por um tema complexo.
No entanto, como um crítico que anseia por uma complexidade ainda maior, seu ponto fraco reside naquilo que, para mim, é a ausência de vozes mais díspares, que pudessem expandir o debate para além dos círculos já conhecidos. Sinto que um documentário sobre “reparação” poderia ter explorado com mais vigor a reparação cultural, a reparação para as comunidades indígenas e quilombolas afetadas indiretamente, a reparação da própria identidade nacional. Mas talvez isso seja pedir demais de um único longa-metragem.
Conclusão: Uma Obra Indispensável
Reparação é um filme que todos os brasileiros deveriam ver. Não é um documentário de fácil digestão, mas é um trabalho essencial para quem busca compreender as raízes de muitas das nossas mazelas sociais e políticas contemporâneas. Daniel Moreno nos entrega uma obra que, embora tenha sido lançada em 2010, soa incrivelmente atual em 2025. É um lembrete vívido de que a história não é estática, e as feridas do passado, quando não tratadas, continuam a inflamar o presente.
Eu recomendo este filme não apenas para entusiastas de documentários ou de história, mas para qualquer pessoa que se preocupe com o futuro do Brasil. Ele está lá, acessível em plataformas digitais, esperando para ser redescoberto. Assistir a Reparação hoje é mais do que revisitar um pedaço da nossa história; é um ato de resistência contra o esquecimento e um convite urgente para que continuemos a lutar por uma reparação completa, não só das vítimas, mas da própria alma de uma nação que ainda tenta se encontrar com a verdade. É um filme que me moveu, me irritou e me fez pensar – e isso, para mim, é o maior elogio que um crítico pode dar.




