Tem dias que a gente só quer desvendar o mistério por trás do megafone, entender como uma voz, antes restrita aos muros de um bairro, ecoa por continentes inteiros. É uma curiosidade quase antropológica, sabe? E quando o assunto é o Duki, esse fenômeno argentino que, com a força de um furacão, redefiniu o que é ser um “rockstar” na era digital, a vontade de mergulhar fundo é ainda maior. Por isso, quando soube que Rockstar: DUKI from the End of the World estava prestes a chegar, minha cadeira de crítico de cinema – e de entusiasta da cultura pop – simplesmente não me deixou em paz.
O filme, que acabou de aterrissar em 2025, não é apenas um documentário musical; é um portal. É uma chance de espiar pelas frestas da fama, de sentir a poeira das primeiras batalhas de rap e o ar rarefeito dos palcos lotados. E o que Alejandro Hartmann, o diretor, consegue é algo que muitos tentam, mas poucos alcançam: ele nos dá Duki, não como um ídolo intocável, mas como um ser humano, complexo, contraditório e incrivelmente autêntico.
A narrativa, cuidadosamente tecida por Tatiana Merenuk e Soledad Venier, foge da linearidade chata que costuma amarrar muitas biografias. Em vez disso, ela se dobra sobre si mesma, mergulhando no passado sem perder o fio do presente. Vemos o Duki, aquele garoto dos “quintas”, com o olhar faminto por reconhecimento, a boca carregada de versos improvisados que cortavam o ar como navalhas. Você quase sente a adrenalina das rodas de freestyle, o calor da multidão, a eletricidade pré-vitória ou a amargura da derrota. É um vislumbre cru e honesto dos alicerces que construíram o artista.
Mas a genialidade do filme reside na sua capacidade de mostrar as nuances. A ascensão não é retratada como uma jornada fácil, banhada apenas em confetes e aplausos. Há momentos de silêncio pesado, de olhares que parecem carregar o peso do mundo. Duki, interpretando a si mesmo, não se esquiva das sombras. Ele nos permite ver a hesitação, a exaustão, talvez até um certo estranhamento com a própria imagem de ícone. Aquela frase “from the End of the World” no título, ela ganha um novo significado. Não é apenas sobre a Argentina, é sobre a margem, a periferia cultural que, de repente, se vê no centro do universo. E isso, meu amigo, traz uma pressão que só quem vive entende.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Alejandro Hartmann |
| Roteiristas | Tatiana Merenuk, Soledad Venier |
| Produtores | Sandra Quiroga, Guillermo Lombardo, Federico Lauría, Tito Leconte, Agustín Pichot, Juan Makintach |
| Elenco Principal | Duki |
| Gênero | Documentário, Música |
| Ano de Lançamento | 2025 |
| Produtoras | PEGSA Group, Dale Play Live, SSJ |
A câmera de Hartmann, junto à expertise das produtoras PEGSA Group, Dale Play Live e SSJ, não se limita a registrar. Ela se curva, respira, pulsa com a batida do trap. A edição é ágil, quase como um verso de Duki – rápida, incisiva, mas com pausas estratégicas para que a emoção se assente. E a música, claro, é a espinha dorsal de tudo. Não é só um pano de fundo; é a linguagem universal que conecta o Duki de ontem com o de hoje, e ele com o público.
O que ‘Rockstar’ nos entrega, ao fim e ao cabo, é mais do que a história de um músico de sucesso. É um estudo sobre a perseverança, sobre a reinvenção constante de um artista que se recusa a ser encaixotado, mesmo quando o mundo inteiro tenta colocá-lo em uma prateleira. É a gente vendo de perto a metamorfose: o improvisador de batalhas se transformando no criador de hits, sem jamais perder a essência daquele que um dia “veio do fim do mundo” para conquistar tudo. E isso, para mim, é o que um bom documentário musical deveria fazer: não apenas mostrar, mas fazer a gente sentir a batida do coração de um artista. E ‘Rockstar’ faz isso com uma energia que é impossível de ignorar.




