Ah, Sabrina. Sabe, às vezes a gente encontra um filme que já nasce sob uma sombra, a de um clássico intocável, e a primeira reação é quase um suspiro: “De novo? Precisava?”. Eu mesmo, ao longo dos anos, vi tantos remakes que me fizeram coçar a cabeça que confesso que o ceticismo é meu companheiro fiel nessas horas. Mas, veja bem, não sou daqueles que acham que cinema tem que ser um museu. Filmes, como a vida, são feitos para serem revisitados, reinterpretados, quem sabe até repintados com cores diferentes. E é justamente por isso que, de tempos em tempos, um desses “novos olhares” nos surpreende, nos faz ponderar sobre o valor da repetição e da reinvenção.
Sabrina, de 1995, dirigido pelo sempre elegante Sydney Pollack, é um desses casos que nos convida a uma reflexão. Não é um filme que grite por atenção com efeitos mirabolantes ou reviravoltas chocantes. Pelo contrário, sua força está na sutileza, no charme que emana de um romance que, à primeira vista, parece tão improvável quanto um duende na Bolsa de Valores. A história, se você não a conhece, é daquelas atemporais que flertam com o conto de fadas, mas com os pés firmemente plantados na alta sociedade de Long Island, Nova York, onde o dinheiro dita muitas das regras, e talvez até os corações.
No centro de tudo, temos Sabrina Fairchild, a filha do chofer da riquíssima família Larrabee. Julia Ormond nos entrega uma Sabrina inicialmente quase invisível, um passarinho em seu próprio ninho, apaixonada secretamente por David Larrabee, o caçula da família. David, interpretado com uma dose perfeita de charme e irresponsabilidade por Greg Kinnear, é o playboy clássico, o tipo que vive para a próxima festa, o próximo flerte, alheio à existência dos sentimentos profundos de qualquer um que não seja ele mesmo. É o contraste entre o mundo opulento e, por vezes, vazio dos Larrabee e a simplicidade sincera de Sabrina que já nos fisga. A gente se vê ali, sabe? Naquele olhar de admiração quase adolescente, desejando o que parece inalcançável.
Mas a vida, ou melhor, a trama, tem seus próprios planos. Sabrina parte para Paris, a cidade que promete transformar almas e estilos. E que transformação! Quando ela retorna, dois anos depois, não é mais a menina tímida. É uma mulher sofisticada, que exala uma confiança e um estilo que só a Cidade Luz parece capaz de infundir. E é claro que David, o eterno irresponsável, finalmente nota a borboleta que emergiu. Esse momento, a festa de aniversário onde Sabrina reaparece, é um dos pontos altos do filme. A gente sente o impacto, o choque, a curiosidade no ar.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Sydney Pollack |
| Roteiristas | Barbara Benedek, David Rayfiel |
| Produtores | Sydney Pollack, Scott Rudin |
| Elenco Principal | Harrison Ford, Julia Ormond, Greg Kinnear, Nancy Marchand, John Wood |
| Gênero | Romance, Drama, Comédia |
| Ano de Lançamento | 1995 |
| Produtoras | Paramount Pictures, Constellation Films, Mirage Enterprises, Scott Rudin Productions, Sandollar Productions, Worldwide Productions, Mont Blanc Entertainment GmbH |
Aí entra em cena Linus Larrabee, o irmão mais velho, vivido por um Harrison Ford que, para muitos, pode parecer um tanto fora de seu habitat de herói de ação. Mas eu te digo: é justamente essa “deslocação” que funciona. Linus é o empresário pragmático, o cérebro por trás do império da família Larrabee, obcecado por negócios, fusões, cifras e poder. Para ele, o romance de David com Sabrina, uma moça sem “pedigree” e, mais importante, sem a “fortuna” adequada, é uma ameaça direta a um importante negócio familiar.
E é aqui que a complexidade do filme realmente brilha. Linus, inicialmente, não é um herói romântico. Ele é um arquiteto de esquemas, um homem que vê o amor como mais uma equação a ser resolvida para o bem do “family business”. Ele tenta impedir o romance, mas não por maldade pura, e sim por uma lógica fria e calculista que ele acredita ser a única via para a estabilidade. Harrison Ford, com seu jeitão um tanto ranzinza, mas com aquele brilho nos olhos que sempre sugere algo a mais, navega essa transição de forma magistral. A gente vê a armadura se quebrar, o homem de negócios rígido dando lugar, de forma lenta e quase imperceptível, a um homem que descobre sentimentos que nem ele mesmo sabia que possuía.
A dinâmica entre os irmãos Larrabee, Linus e David, é um show à parte. É a velha história do “irmão responsável” contra o “irmão playboy”, uma relação de amor e frustração que muitos de nós podemos reconhecer. E a Maude Larrabee, interpretada pela sempre excelente Nancy Marchand, com seu olhar astuto e seu porte aristocrático, observa tudo do alto de sua experiência, representando a aprovação ou desaprovação da alta sociedade.
O que me pega em Sabrina é justamente a maneira como ele lida com a ideia de “impossible love” e “wealth differences”. Não é apenas um romance clichê onde a garota pobre conquista o príncipe rico. É mais sobre a descoberta do que realmente importa. Sabrina, com sua transformação parisiense, não apenas muda por fora, mas amadurece por dentro, aprendendo a valorizar a essência das pessoas, e não apenas o brilho superficial. E Linus, o homem que sempre teve tudo material, se vê confrontado com a possibilidade de perder algo intangível, mas de valor inestimável.
Sydney Pollack e sua equipe de roteiristas, Barbara Benedek e David Rayfiel, criam um ambiente visualmente rico e emocionalmente ressonante. As cenas em Paris são um convite à fantasia, enquanto os interiores da mansão Larrabee em Long Island nos mergulham na opulência e, por vezes, na solidão de um mundo dourado. A fotografia, os figurinos, tudo contribui para essa atmosfera de elegância e drama romântico.
Agora, sobre o tal trecho de crítica que eu li, de que seria um “remake completamente dispensável”. Entendo o ponto. Se a gente for comparar nota a nota, talvez a versão original tenha seu lugar inegável na história do cinema. Mas dispensável? Aí eu já discordo um pouco, sabe? Porque o cinema não é só sobre o “primeiro” ou o “melhor”. É sobre a experiência que cada filme proporciona. E a Sabrina de 1995, com sua própria energia, seu elenco particular e a visão de Pollack, oferece uma experiência charmosa, calorosa e, sim, cativante à sua própria maneira. Ela nos lembra que, às vezes, o amor encontra os caminhos mais inesperados, transformando não só os apaixonados, mas também a nossa própria percepção do que o coração realmente busca. É um filme que, pra mim, justifica sua existência não por ser uma cópia, mas por ser uma nova voz em uma melodia que vale a pena ser ouvida novamente.




