Samaritano

Sabe,de vez em quando,a gente se pega pensando no que resta dos nossos heróis. Não falo dos de quadrinhos,voando pelos céus de capas esvoaçantes,mas daqueles que nos prometeram segurança,que nos inspiraram a acreditar em algo maior. É por isso que,três anos depois de sua discreta chegada,Samaritano ainda me provoca uma reflexão. Não é um blockbuster que redefiniu o gênero,longe disso,mas tem um coração pulsante que,para mim,merece ser revisitado.

Afinal,por que falar de um filme lançado lá em 2022,em meio a tantas explosões e universos conectados que nos são jogados semanalmente? Bem,porque Samaritano tece uma história que fala mais sobre o peso do passado e a busca por esperança no cinza do dia a dia do que sobre superpoderes espetaculares. A premissa é aquela que todo fã de quadrinhos de nicho adora:um super-herói,o tal Samaritano,dado como morto após uma batalha épica há 25 anos,em meio ao caos das ruas. Agora,um garotinho curioso e cheio de fé,Sam Cleary (um Javon Walton que nos entrega vulnerabilidade e teimosia na medida certa),começa a desvendar a lenda,e sua bússola aponta para Joe Smith (Sylvester Stallone),um catador de lixo recluso,que parece carregar o mundo nos ombros.

E ah,Stallone!Aí é que a coisa fica interessante. Não é o Rocky Balboa jovem e sedento por vitória,nem o Rambo implacável na selva. Aqui,ele é um gigante envelhecido,com o corpo cansado e a alma marcada por décadas. Seus movimentos são lentos,pesados,cada levantar,cada passo,parece um esforço hercúleo. Quando ele se move,não é com a agilidade de um deus,mas com a força bruta de alguém que aprendeu a suportar a dor. Os olhos de Stallone,velhos conhecidos nossos,transbordam uma melancolia que dispensa diálogos expositivos. A gente sente o PTSD,o fardo de um passado violento que ele tenta enterrar sob uma rotina de anonimato. Ele não diz que está exausto,ele é a exaustão. É a performance de um ator que entende seu próprio lugar na história do cinema de ação e usa isso a seu favor,encarnando um herói que não quer ser herói.

O filme se passa em Granite City,uma metrópole que parece ter sido sugada de um recorte de jornal sobre “o declínio das grandes cidades”. A pobreza é palpável,as ruas são cenários para motins e crimes descontrolados. Não é um mundo brilhante de CGI e arranha-céus intocáveis. É um lugar onde mães solteiras como Tiffany Cleary (Dascha Polanco,que nos mostra a resiliência e o amor de uma mãe lutando para sobreviver) lutam para pagar as contas,onde o desemprego é uma chaga e a juventude é seduzida por gangues criminosas,lideradas por figuras como Cyrus (Pilou Asbæk,que traz uma intensidade perturbadora ao seu vilão,carregado de ódio e reverência distorcida ao Samaritano original). Essa é a tapeçaria social que Julius Avery,o diretor,tece com Bragi F. Schut,o roteirista. Eles nos jogam nesse ambiente de caos e nos fazem questionar:para que serve um super-herói quando a estrutura da sociedade está podre?

AtributoDetalhe
DiretorJulius Avery
RoteiristaBragi F. Schut
ProdutoresSylvester Stallone,Braden Aftergood
Elenco PrincipalJavon Walton,Sylvester Stallone,Dascha Polanco,Moisés Arias,Pilou Asbæk,Sophia Tatum,Martin Starr,Henry G. Sanders,Jared Odrick,Abraham Clinkscales
GêneroFicção científica,Crime,Ação
Ano de Lançamento2022
ProdutorasMetro-Goldwyn-Mayer,Balboa Productions

Muitas críticas na época apontaram que Samaritano era um filme “by the numbers”,previsível,uma “adição à lista”de filmes de super-heróis que não ousam muito. E,em parte,a gente pode até concordar. O roteiro,por vezes,trilha caminhos que já vimos. A reviravolta principal,para alguns,pode não ser tão surpreendente assim. Mas olha,será que todo filme de gênero precisa reinventar a roda? Às vezes,o que precisamos é de uma história bem contada,com personagens em que a gente consegue se apegar,mesmo que a jornada pareça familiar. Aqui,a força reside na humanidade dos seus protagonistas,na química improvável entre o garoto cheio de esperança e o homem velho e desiludido. Essa é a verdadeira superpotência de Samaritano:a capacidade de nos conectar com a procura por algo bom em um mundo que parece determinado a nos puxar para o fundo.

A forma como o filme lida com temas como a inveja,o ódio e a necessidade de um símbolo,seja ele bom ou mau,é bem interessante. Cyrus não é apenas um criminoso;ele é alguém que idolatra e busca emular uma força que,ele acredita,pode trazer ordem – mesmo que seja a sua própria versão distorcida de ordem. Há uma dualidade aqui que ressoa com a complexidade da própria natureza humana.

No fim das contas,Samaritano talvez não seja o filme que você lembrará por seus efeitos visuais revolucionários ou por suas sequências de ação que desafiam a gravidade – embora as lutas,com a força bruta de Joe usando sua marreta,sejam visceralmente satisfatórias. O que permanece é a imagem de um Sylvester Stallone que,com a sua fisicalidade e a sua presença,nos lembra que ser um herói não é apenas sobre o que você pode fazer,mas sobre o que você escolhe fazer,mesmo quando tudo em você quer desistir. É um filme que,de uma forma bem sutil,me fez refletir sobre a velhice,a responsabilidade e o legado. E isso,convenhamos,já é mais do que muitos “filmes de super-heróis”conseguem entregar. Fica a dica para uma revisita,caso você,como eu,aprecie uma boa dose de humanidade e melancolia em meio à ação.

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