Selvagem, o potente drama de estreia do diretor e roteirista Camille Vidal-Naquet, não se limita a retratar a vida de um jovem prostituto; ele oferece uma imersão crua e sem concessões na existência de Léo (Félix Maritaud), um rapaz de 22 anos que vende seu corpo nas ruas de Estrasburgo. Longe de qualquer romantização ou julgamento moralista, o filme se estabelece como um estudo visceral da vulnerabilidade humana e da incessante busca por afeto e pertencimento em um ambiente que, por sua natureza, desumaniza. A tese central da obra reside na sua habilidade de expor a solidão existencial de Léo, transformando cada encontro transacional em um eco de seu desejo por intimidade genuína, revelando uma resiliência silenciosa que pulsa sob uma superfície de constante incerteza.
Vidal-Naquet emprega uma direção que privilegia o realismo quase documental, uma escolha estilística que confere ao filme sua força inegável. A câmera, frequentemente operada à mão, acompanha Léo em sua jornada errante, quase colada ao seu corpo, intensificando a sensação de imersão e a claustrofobia de sua realidade. Não há filtros ou artifícios estéticos que suavizem a aspereza de seu cotidiano; a direção opta por uma frontalidade que desafia o espectador a confrontar a realidade de Léo sem desvios. É notável como Vidal-Naquet, em sua primeira longa-metragem, demonstra uma segurança na construção de uma atmosfera de desolação e esperança tênue, explorando a nuance dos encontros efêmeros e a complexidade emocional de seu protagonista. A decisão de manter o ritmo do filme deliberadamente lento em vários momentos força uma contemplação sobre a espera e a inércia que permeiam a vida de Léo, um contraste com a urgência de suas necessidades.
A maestria técnica de Selvagem reside na sua capacidade de comunicar o estado interior de Léo através de elementos sutis, mas poderosos. A fotografia, predominantemente com luz natural e tons frios, capta a brutalidade e a frieza das ruas de Estrasburgo, contrastando-as com a breve e calorosa intimidade de certos momentos. As escolhas de iluminação realçam a paleta de cores desbotada do ambiente urbano, sublinhando a sensação de desamparo. O design de som é outro pilar essencial; a mixagem enfatiza o ruído ambiente da cidade – o tráfego distante, as vozes abafadas, o silêncio pesado entre os diálogos – criando um cenário sonoro que sublinha o isolamento de Léo, mas também sua conexão ininterrupta com a cidade.
O roteiro, escrito também por Vidal-Naquet, é econômico em diálogos, mas rico em subtexto. A narrativa avança através de ações e reações corporais, com ênfase na fisicalidade e na linguagem não-verbal, permitindo que a atuação de Félix Maritaud se destaque. Maritaud encarna Léo com uma entrega visceral, especialmente na cena em que, após um confronto particularmente doloroso, ele se encolhe em um beco escuro, seu corpo tremendo de exaustão e desespero, transmitindo a vulnerabilidade da personagem sem uma única palavra, apenas através de sua expressão e da contração de seus músculos. A montagem, muitas vezes com cortes abruptos que simulam a fragmentação da vida de Léo, alterna momentos de brutalidade com instantes de ternura fugaz, construindo um ritmo que reflete a imprevisibilidade de sua existência.
| Direção | Camille Vidal-Naquet |
| Roteiro | Camille Vidal-Naquet |
| Elenco Principal | Félix Maritaud (Léo), Éric Bernard (Ahd), Nicolas Dibla (Mihal), Philippe Ohrel (Claude), Marie Seux (Doctor) |
| Gêneros | Drama |
| Lançamento | 29/08/2018 |
| Produção | Les Films de la Croisade |
Os temas centrais de Selvagem giram em torno da busca por amor e conexão humana em um contexto de marginalização. Léo, embora engajado na prostituição, não é retratado como um mero objeto de desejo; ele é um sujeito em busca de algo mais profundo. O filme explora a dualidade entre o ato transacional e a ânsia por intimidade, evidenciada em sua persistente procura por Ahd (Éric Bernard), um cliente com quem ele desenvolve uma ligação mais complexa. Essa relação, ambígua e cheia de expectativas não ditas, serve como um microcosmo da busca de Léo por um porto seguro emocional.
Além disso, o filme aborda a precaridade da vida marginalizada e a solidão inerente a ela, especialmente para indivíduos LGBT nas periferias sociais. O corpo de Léo é seu meio de subsistência, mas também o veículo de sua busca por aceitação e afeto, tornando-o um objeto de desejo e, paradoxalmente, um sujeito de sentimentos profundos. A narrativa explora como, mesmo em um ambiente onde a intimidade é monetizada, a necessidade de ser visto, tocado e amado persiste como uma força motriz inescapável.
Selvagem se insere com distinção no nicho do drama LGBT de realismo social, especificamente focado na vida de jovens marginalizados e na prostituição masculina. A obra de Camille Vidal-Naquet pode ser comparada, em termos temáticos e estéticos, a dois filmes que exploram a complexidade da identidade queer e a busca por conexão em ambientes hostis. O primeiro é Eastern Boys (2013), de Robin Campillo, que investiga as dinâmicas de poder e as fragilidades emocionais dentro do universo da prostituição masculina em Paris, com um enfoque identitário similar na comunidade gay e nos desafios de migração. O segundo é Beach Rats (2017), de Eliza Hittman, que, embora situado em Nova York e com um foco diferente na exploração da sexualidade secreta de um jovem, compartilha com Selvagem uma estética crua e íntima ao retratar a angústia juvenil, a confusão identitária e a busca por significado em encontros transacionais. Ambos os filmes priorizam a observação da vulnerabilidade masculina em contextos socialmente estigmatizados, permitindo uma compreensão aprofundada das complexas camadas emocionais que permeiam a vida de seus protagonistas.
Selvagem é uma obra cinematográfica essencial para quem busca um cinema autêntico, que não teme explorar as profundezas da condição humana em seus aspectos mais desprotegidos. É um filme para o público que valoriza narrativas focadas na vulnerabilidade, na identidade LGBT e na busca por afeto em cenários urbanos implacáveis. A relevância cultural da obra reside em sua capacidade de dar voz e visibilidade a existências frequentemente invisibilizadas, oferecendo uma perspectiva empática e sem moralismos sobre a vida de quem vive à margem, mas anseia pela mesma dignidade e amor que todos. O filme de Vidal-Naquet permanece como um grito silencioso por humanidade, uma jornada pungente que ecoa muito depois de a tela escurecer.




