Sem Norte

Jovem de costas entre muros altos, olhando um sol vermelho brilhante com pássaro voando. Céu vibrante e cenário desolado.
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Sabe, tem filmes que a gente assiste e, mesmo depois que a tela escurece, eles continuam reverberando na gente, como um sino tocando em uma caverna escura. Sem Norte é um desses. E por que eu me sinto compelido a falar sobre ele, agora, quase três anos depois de sua estreia original e um bom tempo após ter chegado ao Brasil? Porque algumas obras têm o poder de fincar raízes profundas na nossa consciência, de nos puxar para um abismo de reflexão que não nos permite esquecer. Eu, particularmente, fui pego de surpresa. A princípio, a escolha da animação para um tema tão dilacerante como a sobrevivência em um campo de prisioneiros na Coreia do Norte pode parecer… contraintuitiva, não é mesmo? A gente associa animação a algo leve, fantasioso, talvez até infantil. Mas Eiji Han Shimizu, tanto na direção quanto no roteiro, desafia essa percepção, provando que o poder da arte não tem limites de formato.

A história é simples na sua premissa, mas dilacerante na execução: um menino vê sua vida ser virada de cabeça para baixo quando ele e sua família são arrastados para a realidade brutal de um campo de prisioneiros políticos. É nesse inferno na Terra que ele precisa não apenas sobreviver fisicamente, mas, o que é mais assustador, encontrar um sentido para a sua própria existência. A pergunta que se impõe, e que o filme nos força a fazer junto com o protagonista, é: como encontrar uma bússola interna quando o mundo ao seu redor parece ter perdido todo e qualquer senso de direção?

A magia de Sem Norte reside justamente em como ele nos mostra, e não apenas nos conta, a desolação e a tenacidade do espírito humano. Os traços da animação, por vezes espartanos, quase despojados, como se a própria escassez do ambiente se refletisse na arte, são poderosíssimos. Não há espaço para o supérfluo. Cada linha, cada cor – ou a ausência dela – serve para amplificar a claustrofobia, o frio cortante, a fome que esmaga o estômago e a alma. Você quase sente o ar denso daquele lugar, o cheiro de desespero misturado com poeira e talvez, quem sabe, um toque de esperança teimosa, que se recusa a morrer completamente. E é por essa simplicidade visual que a complexidade emocional transborda, inundando a tela com uma verdade crua que poucas produções de live-action conseguiriam replicar sem cair no sensacionalismo.

As performances vocais são um pilar fundamental para essa imersão. Joel Sutton, Sammy Anderson, Jacquelyn Palmquist e Michael Sasaki não apenas dão voz a seus personagens; eles emprestam suas almas. São lamentos, sussurros de coragem, gritos abafados de desespero e a quietude resignada da resiliência que permeiam cada cena. Quando o protagonista, por exemplo, tenta encontrar uma razão para continuar, a voz de Joel Sutton (que imagino ser a dele, pela força da atuação principal), não apenas verbaliza, mas encarna o conflito interno. É como se a própria vibração da garganta transmitisse a dor e a determinação, sem que precisemos ver um músculo facial se contrair. É uma aula de como a nuance sonora pode construir personagens tão palpáveis quanto os de carne e osso.

Atributo Detalhe
Diretor Eiji Han Shimizu
Roteirista Eiji Han Shimizu
Elenco Principal Joel Sutton, Sammy Anderson, Jacquelyn Palmquist, Michael Sasaki
Gênero Drama, Animação
Ano de Lançamento 2020
Produtora Sumimasen Pte. Ltd

Eiji Han Shimizu, ao conceber e executar Sem Norte, nos oferece mais do que um filme; ele nos entrega um espelho. Um espelho que reflete as extremidades do sofrimento humano, sim, mas também a inquebrantável vontade de viver, de amar, de encontrar um propósito, mesmo quando o mundo parece conspirar para apagar cada uma dessas chamas. A narrativa não cai na armadilha de didatismos óbvios ou de uma heroização fácil. Pelo contrário, ela nos mergulha na ambiguidade da sobrevivência, nos momentos de egoísmo e de altruísmo que coexistem quando a vida pende por um fio.

Quando Sem Norte chegou aos cinemas brasileiros em agosto de 2022, dois anos depois de sua estreia original, trouxe consigo um eco que talvez demore a se calar. Ele nos lembra, em uma época onde o mundo parece girar tão rápido que perdemos o compasso, que a liberdade é um privilégio frágil, e que a dignidade humana, mesmo quando pisoteada, encontra formas de florescer nas rachaduras mais inesperadas. Este não é um filme fácil de assistir, tá? Ele te cutuca, te incomoda, te faz pensar sobre o que você faria, o que nós faríamos, diante de tal adversidade. Mas é, sem dúvida, uma obra essencial. Você sairá do cinema diferente, eu prometo. Talvez um pouco mais pesado, sim, mas também estranhamente mais grato, e talvez, só talvez, com uma bússola interna um pouquinho mais calibrada. E isso, para mim, é o maior presente que uma obra de arte pode nos dar.

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