A transposição de uma obra cinematográfica de culto para o formato serializado televisivo é um desafio que poucas produções conseguem dominar. Snatch: Um Novo Golpe, lançada em 2017, embarca nessa empreitada, não como uma mera réplica do icónico filme de Guy Ritchie, mas como uma reinterpretação ambiciosa que busca expandir o universo de golpes, gângsteres e ouro roubado. A série se estabelece como uma comédia criminal astuta, mergulhando um grupo de jovens golpistas amadores no perigoso labirinto do crime organizado após a inesperada descoberta de lingotes de ouro.
A tese central da série reside na exploração da herança criminal e da busca por identidade dentro de um mundo de ilegalidades. Longe de ser apenas uma sucessão de golpes e perseguições, Snatch: Um Novo Golpe propõe uma análise sobre como a reputação e as escolhas de gerações passadas moldam o destino dos seus descendentes. A obra questiona a linha tênue entre a ascensão social através do crime e a inevitável armadilha que acompanha essa trajetória, tudo isso embrulhado em um humor peculiarmente britânico e um ritmo frenético.
O criador Alex De Rakoff, com experiência prévia na escrita de thrillers com toque sombrio como “Dead Man’s Shoes”, imprime em “Snatch” uma visão que respeita a estética original do filme, ao mesmo tempo em que a adapta para a narrativa episódica. A série preserva o estilo visual dinâmico, caracterizado por cortes rápidos, whip pans e um uso inventivo de câmeras que se movem com a agilidade dos próprios personagens. Essa linguagem visual, ao invés de emular exaustivamente a assinatura de Ritchie, serve como um ponto de partida para aprofundar o caos narrativo e sublinhar a inexperiência dos protagonistas em um universo perigoso. A transição entre cenas de diálogo rápido e momentos de ação explosiva é gerenciada com uma montagem ágil que mantém a tensão, mas permite espaço para o desenvolvimento dos arcos dos personagens ao longo da temporada.
Tecnicamente, a série demonstra um domínio da mise-en-scène que a distingue. A cinematografia, por exemplo, emprega uma paleta de cores saturada, mas ao mesmo tempo corajosa, que reflete o brilho ilusório do ouro e o submundo cinzento de Londres. O design de som é crucial para a imersão, com uma trilha sonora eclética que pontua as cenas com a batida certa de rock britânico ou grime, enquanto o diálogo acelerado e repleto de gírias exige atenção do espectador para não perder a riqueza das interações. No que tange à atuação, o elenco central entrega performances notáveis. Luke Pasqualino, como Albert Hill, encarna o peso de um legado familiar criminoso, misturando ambição e uma vulnerabilidade que o torna cativante. Lucien Laviscount, como Billy ‘Fuckin’ Ayers, irradia uma energia bruta e imprevisível, enquanto Phoebe Dynevor, no papel de Lotti Mott, revela uma inteligência afiada e uma capacidade de adaptação que a coloca como uma força motriz nos bastidores. Mas é Rupert Grint, como Charlie Cavendish, quem surpreende ao subverter a imagem de um herdeiro criminoso, adicionando camadas de um humor contido e uma ingenuidade deslocada que o distanciam dos arquétipos mais brutos do gênero.
| Criação | Alex De Rakoff |
| Elenco Principal | Luke Pasqualino (Albert Hill), Lucien Laviscount (Billy ‘Fuckin’ Ayers), Rupert Grint (Charlie Cavendish), Phoebe Dynevor (Lotti Mott), Juliet Aubrey (Lily Hill) |
| Gêneros | Comédia, Crime |
| Lançamento | 16/03/2017 |
| Produção | Little Island Productions, Sony Pictures Television |
Os temas centrais de Snatch: Um Novo Golpe giram em torno da lealdade, da traição e da incessante busca por um golpe que mude suas vidas. A série ilustra como a ambição pode rapidamente superar a inexperiência, levando os personagens a situações cada vez mais rocambolescas e perigosas. Um momento particularmente impactante ocorre em uma das primeiras tentativas do grupo de vender o ouro roubado. A cena, que deveria ser uma simples transação, rapidamente se transforma em uma sequência cômica e tensa de mal-entendidos e ameaças veladas, culminando em uma confusão generalizada. Este instante encapsula a essência da série: a constante balança entre a aspiração grandiosa e a realidade patética dos pequenos criminosos, cujos planos raramente saem como esperado, reforçando a ideia de que no submundo, o caos é a única constante.
No nicho de séries de TV de comédia criminal britânica com elementos de golpe e submundo urbano, Snatch: Um Novo Golpe se posiciona de forma única. A comparação mais evidente é, naturalmente, com o filme “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), do qual a série deriva. Enquanto o filme se destacava por sua narrativa fragmentada e um ritmo implacável, a série aproveita o formato estendido para aprofundar os personagens e suas motivações, expandindo o universo para além dos limites de uma única narrativa. Outra obra que ressoa tematicamente e esteticamente é “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” (1998), também de Guy Ritchie. Ambas as produções compartilham o fascínio pelo submundo criminoso britânico, povoado por personagens excêntricos, diálogos afiados e situações que beiram o absurdo, mas sempre com um senso de urgência e perigo. O enfoque cultural e identitário dessas obras reside na forma como retratam, com uma energia vibrante e um humor autodepreciativo, uma faceta específica da classe trabalhadora britânica que busca uma saída — ou uma entrada mais profunda — para a criminalidade, muitas vezes como uma forma distorcida de ascensão social e validação.
Snatch: Um Novo Golpe é uma obra para o espectador que aprecia a energia caótica dos filmes de golpe britânicos, mas que anseia por uma narrativa mais longa e aprofundada. É ideal para fãs de séries de crime com forte componente de comédia, que valorizam atuações carismáticas e um estilo visual distintivo. A série cumpre a promessa de expandir um universo amado, entregando uma experiência que, embora familiar, possui identidade própria e um apelo duradouro para aqueles dispostos a mergulhar no mundo de riscos e risadas do submundo londrino.




