Somente Você

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Sabe, tem filmes que a gente assiste e, por algum motivo inexplicável, eles grudam na gente. Não são sempre os blockbusters cheios de efeitos especiais ou os dramas shakespearianos que te fazem chorar rios. Às vezes, é a sutileza, a humanidade crua de uma história que nos pega desprevenidos. Para mim, Somente Você, que chegou aos cinemas brasileiros em junho de 2022 e que, de alguma forma, continua ecoando por aqui em outubro de 2025, é um desses filmes. E por que eu, um mero crítico, me sinto compelido a revisitar essa joia agora? Porque a vida, como o filme, é uma tapeçaria de “e se” e “porquês”.

Somente Você não é um romance açucarado. Longe disso. É um drama romântico que, na sua essência, nos convida a confrontar uma das perguntas mais incômodas da vida adulta: onde está a linha entre a liberdade que tanto almejamos e o desejo, talvez inconfesso, de fincar raízes? A Tom de Caitlin Stasey é a personificação dessa encruzilhada. Aos trinta anos, ela é um passaporte vivo, cada carimbo uma história, cada fronteira cruzada uma vitória pessoal. Sua vida é uma ode à aventura, um desfile sem fim de paisagens mutáveis. E, vamos ser sinceros, quem de nós nunca fantasiou com essa existência nômade, livre das amarras do “normal”?

Mas então, o filme nos arrasta para um vinhedo no sul da França. O contraste é quase palpável: a vastidão do mundo contra a paisagem disciplinada e ancestral das parreiras. É ali que Tom reencontra David, interpretado com uma quietude poderosa por Jon Beavers. David é o oposto complementar de Tom. Enquanto ela voa, ele se enraíza. Ele se dedicou à arte árdua de fazer vinho, uma paixão que exige paciência, cuidado, uma atenção quase obsessiva aos detalhes e, acima de tudo, permanência. David amou Tom desde a primeira vez que a viu numa fogueira na Califórnia, uma imagem que ele, visivelmente, carregou consigo como um tesouro. E agora, ele está ali, pronto para cancelar todos os planos, para arriscar tudo pelo relacionamento que, para ele, nunca deixou de existir.

A beleza da narrativa de Noah e Seth Gilbert, respectivamente diretor e roteirista, reside justamente nessa colisão de mundos, sem julgar qual é o “certo”. A câmera de Noah Gilbert nos faz sentir o sol quente nas videiras, o cheiro da terra úmida, a textura das uvas. Ele não apenas mostra o vinhedo; ele nos faz sentir a vida que David construiu. E, ao mesmo tempo, ele capta o brilho inquieto nos olhos de Tom, mesmo quando ela está parada. A luta dela não é contra David, mas contra a si mesma, contra as expectativas da sociedade que insistem que uma mulher “neste capítulo da vida” deveria ter outra coisa em mente. Mas o que exatamente? Uma casa? Um casamento? Uma rotina?

Atributo Detalhe
Diretor Noah Gilbert
Roteirista Seth Gilbert
Produtor Noah Gilbert
Elenco Principal Caitlin Stasey, Jon Beavers, Niseema Theillaud, Blake Lindsley, Hugo Armstrong
Gênero Drama, Romance
Ano de Lançamento 2021
Produtoras Vertical, Neon Productions, Rhino Films

Caitlin Stasey é um espetáculo. Ela não atua como a mulher dividida; ela é a mulher dividida. Seus sorrisos são por vezes genuínos, outras vezes forçados, como se uma parte dela ainda estivesse calculando a próxima rota de fuga. Seus olhos, que viram tantos horizontes, agora se fixam em David com uma mistura de nostalgia, desejo e, sim, um pingo de medo. Medo de se entregar, de se perder na estabilidade, de abrir mão do “quem eu sou” por um “quem eu poderia ser com você”. E Jon Beavers, como David, é o porto seguro que se oferece sem imposição, com uma profundidade de sentimento que dispensa palavras grandiosas. É no silêncio entre eles, nos olhares demorados, que a verdadeira química se manifesta.

Não posso deixar de mencionar a Madame Gerard de Niseema Theillaud, com sua sabedoria ancestral e sua presença discreta, uma âncora para a turbulência emocional dos protagonistas. Ela e os outros personagens coadjuvantes – Em (Blake Lindsley) e Rob (Hugo Armstrong) – formam o pano de fundo que realça a dicotomia central. Eles representam a vida que Tom poderia ter, ou a vida que ela fugiu.

Somente Você, produzido pela Vertical, Neon Productions e Rhino Films, não é sobre encontrar o príncipe encantado. É sobre a busca por si mesmo dentro de um relacionamento, sobre o peso das escolhas que fazemos e, mais importante, sobre as escolhas que não fazemos. É um filme que te convida a pensar: o que é mais assustador, a solidão da aventura ou a perda de si na conformidade?

Ao final, não há respostas fáceis, e é isso que o torna tão humano e tão impactante. Ele não te entrega um final mastigado. Ele te convida a sentir o dilema de Tom, a esperança de David, e a ponderar sobre suas próprias encruzilhadas. E talvez, assim como eu, você se pegue pensando em Somente Você anos depois de tê-lo assistido, porque a pergunta central que ele nos faz – o que realmente importa no fim das contas? – nunca para de nos assombrar. É um daqueles filmes que amadurecem na mente, como um bom vinho, e cujo sabor persiste muito tempo depois da última gota.