Tenet

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Poxa vida, como o tempo voa, não é? Aqui estamos nós, em 2025, e eu me pego pensando em filmes que ainda ecoam na mente, filmes que provocaram, desafiaram e, francamente, dividiram opiniões de um jeito que só Christopher Nolan consegue. E, falando em Nolan, claro que estou falando de Tenet. Faz cinco anos desde que ele desembarcou nos cinemas brasileiros, no finalzinho de 2020, e a lembrança daquela experiência ainda é tão vívida, quase como se o próprio tempo tivesse se invertido para trazê-la de volta.

Por que revisitar Tenet agora? Porque é um daqueles filmes que pedem uma segunda, talvez uma terceira, ou até uma quarta olhada. E, mais importante, é um filme que provoca debate. Você deve se lembrar daquele burburinho inicial: alguns o saudavam como uma obra-prima de complexidade e engenhosidade visual; outros, bem, sentiam-se como se tivessem sido atropelados por um trem que viajava para trás – impressionados, sim, mas talvez um pouco perdidos e com a sensação de que algo fundamental escapou. Eu, particularmente, senti um pouco dos dois. E é exatamente essa a beleza de obras que não se encaixam em caixinhas fáceis, né?

Christopher Nolan é um diretor que nos acostumou a dobrar a realidade e a esticar a nossa compreensão do tempo. De “Amnésia” a “Dunkirk”, ele sempre brincou com a narrativa e a percepção. Mas com Tenet, ele não apenas brincou; ele a desconstruiu e reconstruiu de uma forma que, para alguns, beirou o inatingível. A sinopse é intrigante por si só: “Armado com apenas uma palavra – Tenet – e lutando pela sobrevivência do mundo inteiro, o Protagonista viaja através de um mundo crepuscular de espionagem internacional em uma missão que irá desenrolar em algo para além do tempo real.” Percebe a sutileza? “Além do tempo real.” Não é só viagem no tempo; é algo mais visceral, mais físico.

A grande sacada, e o grande nó na cabeça de muita gente, é a “inversão”. Esqueça a máquina do tempo que te joga no passado. Aqui, objetos e pessoas têm sua entropia invertida, movendo-se para trás no tempo, mas coexistindo com o fluxo normal. É como ver um filme em que um carro acelera para frente, mas as marcas de pneu na estrada aparecem antes dele passar, porque ele já esteve ali. Loucura, né? Essa ideia de que um tiro pode ser apanhado de volta para dentro da arma, ou que uma explosão pode se reverter em implosão, é um conceito que a mente humana luta para processar. Nolan não nos dá uma explicação fácil; ele nos joga de cabeça nesse paradoxo temporal, nesse universo onde assassinos e espiões invertidos operam em cidades como Oslo, Kiev e até Mumbai, numa trama que envolve um traficante de armas, planos terroristas com armas nucleares e a própria ameaça de uma guerra que transcende o tempo. É intenso, pra dizer o mínimo.

Atributo Detalhe
Diretor Christopher Nolan
Roteirista Christopher Nolan
Produtores Christopher Nolan, Emma Thomas
Elenco Principal John David Washington, Robert Pattinson, Elizabeth Debicki, Kenneth Branagh, Dimple Kapadia
Gênero Ação, Thriller, Ficção científica
Ano de Lançamento 2020
Produtoras Warner Bros. Pictures, Syncopy

Um Balé de Caos e Engenhosidade Visual

Para o Protagonista, interpretado com uma força estoica e um carisma silencioso por John David Washington, essa é uma realidade a ser desvendada. Ele não tem nome, apenas uma missão, e sua jornada é a nossa. Ele é a nossa lente para um mundo de espionagem que é simultaneamente familiar e alienígena. E Washington, com aquela presença magnética, nos guia através de portas rotatórias que invertem o tempo, tiroteios que desafiam a física e perseguições que são um espetáculo à parte.

E que espetáculo, amigos! As cenas de ação são de tirar o fôlego, coreografadas com uma precisão que beira a genialidade. A sequência no aeroporto, com o avião real (sim, real!) explodindo e invertendo-se, ou as perseguições de carro onde veículos se movem em direções opostas no tempo, são momentos que grudam na retina. É o Nolan elevando o “mostrar, não contar” a um novo patamar, fazendo a própria técnica de filmagem espelhar o conceito do filme. É quase como se ele estivesse nos dizendo: “Eu sei que é confuso, mas olha só que legal!”. E, vamos ser sinceros, por mais que a gente quebre a cabeça tentando entender cada detalhe do plano terrorista de Sator, ou as implicações de cada paradoxo temporal, a pura audácia visual e sonora te puxa para dentro. A trilha sonora de Ludwig Göransson, uma tapeçaria pulsante de sons industriais e batidas implacáveis, é um personagem à parte, ditando o ritmo frenético da narrativa e sublinhando a intensidade de cada cena.

O Coração da Espionagem Invertida

Mas Tenet não é só um exercício cerebral e um esfile de pirotecnia. Há um coração batendo, ainda que um pouco frio, no centro dessa teia de espionagem global. Elizabeth Debicki, como Kat, a esposa oprimida de Sator (o vilão implacável interpretado com a frieza gélida de Kenneth Branagh), é o nosso elo emocional. A dor dela, o desespero de ser usada e controlada, é o que aterra a trama, por mais que ela voe alto nos reinos da ficção científica. É através dela que sentimos o peso das ações de Sator, um traficante de armas que não se importa em detonar o futuro para salvar seu próprio presente. E a Priya de Dimple Kapadia, aquela figura enigmática e poderosa, nos lembra que nesse mundo de espiões, as alianças são tão fluidas quanto o tempo.

E então temos Neil, o personagem de Robert Pattinson. Ah, Neil! Ele é a cereja do bolo, o lado charmoso e ligeiramente irreverente que balanceia a seriedade do Protagonista. Pattinson injeta uma energia jovial e um ar de mistério que é absolutamente cativante. A relação entre ele e o Protagonista é um dos pilares mais fortes do filme, construindo-se de maneira sutil e revelando-se de formas que farão você querer rever certas cenas apenas para captar as nuances que antes passaram despercebidas. É a humanidade, a camaradagem e o sacrifício que nos conectam, mesmo quando a trama nos joga para trás e para frente em linhas do tempo alternativas.

A Herança de um Filme Desafiador

Voltando àquela citação que falava sobre Nolan fazer algo “não interessante” apesar da ideia “legal” de coisas indo para trás, eu discordo. A ideia é legal, e o filme é inegavelmente interessante, mesmo que seja confuso. Talvez a confusão seja parte da experiência, né? Será que a gente precisa entender cada vírgula de um paradoxo temporal para apreciar a beleza do caos orquestrado, o dilema dos personagens e a pura escala da ambição? Eu argumentaria que não. Tenet não te entrega respostas; ele te convida a pensar, a debater, a revisitar.

Há quem diga que, com toda a sua inventividade, Tenet carece de um coração emocional tão forte quanto alguns de seus predecessores. E, talvez, haja um pingo de verdade nisso. Não é “Interestelar” com sua carga dramática familiar, nem “A Origem” com seu dilema de realidade e sonho. Tenet é mais cerebral, mais focado na engrenagem da trama e na mecânica do conceito. É um filme que te desafia a montar um quebra-cabeça enquanto todas as peças se movem para trás e para frente ao mesmo tempo. E isso, por si só, já é um feito e tanto.

Cinco anos depois, Tenet continua a ser um filme que me faz pensar, que me faz querer discutir, que me faz querer mergulhar novamente naquele mundo de espionagem invertida. Ele talvez não seja o filme mais caloroso ou o mais fácil de digerir de Christopher Nolan, mas é, sem dúvida, um dos mais ousados. É um lembrete vívido de que o cinema ainda pode nos pegar de surpresa, nos desorientar e, ao mesmo tempo, nos maravilhar com a pura escala de sua imaginação. E para um crítico que ama ser desafiado, isso é ouro. Se você ainda não deu uma segunda chance, ou se nunca se aventurou, talvez 2025 seja o ano de mergulhar de cabeça nessa inversão. Você não vai entender tudo, eu te garanto, mas a viagem, meu amigo, essa sim, vale a pena.