Sabe, a gente passa a vida procurando por aquelas obras que nos agarram, não pela espetacularidade do que gritam, mas pelo silêncio profundo do que sussurram. E, pra mim, desde 2016, The Aeronauts tem sido esse sussurro que ecoa mais alto que muito berro cinematográfico por aí. Lembro-me da primeira vez que o vi, há quase uma década; eu estava numa fase meio desértica da vida, se é que me entende, e a forma como esse filme de animação tratou a vastidão e a solidão me pegou de um jeito que poucas produções conseguem. Não é um filme que você “assiste”; é um filme que você “respira”, que te convida a sentir a areia entre os dentes e o sol causticante na pele.
A primeira coisa que fisga é a ousadia. “Drama” e “Animação” já formam um par interessante, mas quando você joga “stop motion” e “deserto” nessa equação, a coisa muda de figura. León Fernández, junto com Salvador Delgadillo no roteiro, e a equipe da Humanimalia Studio, não apenas fizeram um filme; eles esculpiram uma experiência. A escolha do stop motion não é um mero capricho estético; é a própria alma do filme. Cada grão de areia, cada ruga nos rostos dos personagens, cada movimento lento e deliberado da aeronave empoeirada, tudo isso pulsa com uma vida que só a paciência quase monástica dessa técnica pode trazer. Há uma fisicalidade nesse deserto animado que faz com que a gente sinta o peso da existência dos personagens. As mãos deles não tremem de nervosismo, elas vibram de cansaço, de esperança e desespero misturados, e essa vibração, por mínima que seja, é transmitida com uma clareza quase dolorosa.
O Deserto que Respira em Cada Quadro
Eu costumo dizer que o cenário, em The Aeronauts, não é pano de fundo; é um personagem em si. O deserto, nessa visão de Fernández, é um monstro sublime e indiferente, tão belo quanto implacável. Não é o deserto romântico das mil e uma noites, nem o palco de heroísmos hollywoodianos. É um vazio que ecoa, um espelho para a aridez interna e externa dos protagonistas. Aqueles balonistas, que o título já nos apresenta, parecem mais náufragos do céu do que exploradores. A cada balão murchando, a cada tentativa frustrada de encontrar um oásis que talvez nunca existiu, a gente se vê ali, questionando os próprios limites e a busca incessante por algo que nos dê sentido. É uma jornada que te faz pensar: o que realmente nos mantém flutuando quando tudo parece puxar para baixo?
A genialidade de León Fernández está em como ele usa a lentidão intrínseca do stop motion para amplificar a sensação de tempo arrastado e a vastidão inabalável. Não há pressa, não há cortes frenéticos. Há a observação atenta do sol nascendo e se pondo, da sombra alongada que se desenha na areia, da exaustão que se acumula nos olhos de bonecos que parecem feitos de carne e osso, de pó e melancolia. A Humanimalia Studio não nos entregou apenas modelos articulados; entregou almas em miniatura, capazes de expressar a angústia de uma travessia sem fim com a mínima inclinação de um queixo ou o repouso de uma cabeça.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | León Fernández |
| Roteiristas | Salvador Delgadillo, León Fernández |
| Gênero | Drama, Animação |
| Ano de Lançamento | 2016 |
| Produtora | Humanimalia Studio |
Uma Dança Entre o Silêncio e a Esperança
O drama em The Aeronauts é construído nos pequenos gestos, nas pausas carregadas de significado. Não espere grandes diálogos explicativos; aqui, a comunicação acontece no olhar perdido no horizonte, no modo como um personagem estende a mão para o outro sem precisar de palavras, na solidariedade tácita que nasce da adversidade compartilhada. Essa é a beleza da nuance que tanto prezo. Não há heróis perfeitos ou vilões unidimensionais. Há seres humanos falhos, mas resilientes, cada um com sua própria bagagem de medos e esperanças, tentando navegar por um mar de areia sob um céu que não promete nada, mas também não tira tudo.
Olhando para trás, quase nove anos depois, percebo que The Aeronauts não é um filme que te dá respostas fáceis. Pelo contrário, ele te inunda de perguntas, te convida a mergulhar na beleza da fragilidade humana e na imensidão do mundo ao nosso redor. É um filme que te lembra que, às vezes, a maior aventura não está em alcançar um destino, mas em suportar a jornada, em encontrar um pedacinho de beleza na desolação e em se agarrar à leveza de um balão mesmo quando o peso do mundo ameaça te arrastar para baixo. Para quem busca uma experiência cinematográfica que não apenas preencha os olhos, mas também alimente a alma com uma reflexão sutil e profunda, essa obra-prima silenciosa de León Fernández permanece tão relevante hoje quanto em seu ano de lançamento. É um sopro de ar fresco, ou talvez, um gole de água fresca, num deserto de produções genéricas. E isso, pra mim, vale mais do que qualquer ouro.




