Ah, o cinema! Uma caixa de surpresas onde, de vez em quando, a gente desenterra uma joia esquecida, um sussurro do passado que ainda tem muito a dizer. E é por essa sensação de redescoberta que me pego, hoje, refletindo sobre The Power, um filme de 1968 que, talvez, não esteja no panteão das produções mais faladas de ficção científica e thriller, mas que pulsa com uma inteligência e uma tensão que poucos conseguem alcançar. Sabe, não é sempre que uma história sobre controle mental e telecinese consegue te agarrar pelo colarinho da alma sem precisar de efeitos especiais que berram; às vezes, um bom roteiro e um elenco afiado são mais que suficientes.
Imagine a cena: um grupo de mentes brilhantes, os cérebros da ciência, reunidos para um projeto que promete revolucionar o entendimento humano. O cenário é um instituto de pesquisa, onde a intelectualidade se cruza com a ambição. Mas essa paz acadêmica é estilhaçada por uma revelação perturbadora: há alguém entre eles, um indivíduo com uma capacidade mental que desafia toda a lógica conhecida. Estamos falando de um poder psíquico, uma superpotência silenciosa, capaz de manipular a realidade e, mais aterrorizante ainda, as mentes e corpos dos outros. E, claro, esse dom não é usado para distribuir flores ou resolver a equação do universo. Não. Alguém começa a usar esse poder para o mal, transformando um experimento científico em um palco para o assassinato.
É aí que entra o Professor Jim Tanner, interpretado com uma gravidade surpreendente por George Hamilton. Hamilton, que a gente conhece por um certo charme galante, aqui veste a pele de um homem da ciência cético, mas obstinado, que se vê arrastado para uma caçada quase sobrenatural. Ele precisa descobrir quem é esse “super-homem” ou “super-mulher” que age nas sombras, antes que mais vidas sejam ceifadas e a própria sanidade do grupo desmorone. Ao seu lado, Prof. Margery Lansing (Suzanne Pleshette) não é apenas um par romântico; ela é uma força intelectual, uma mente que se recusa a aceitar o inexplicável sem uma boa briga, adicionando uma camada de profundidade e camaradagem à crescente paranoia.
O filme, dirigido por Byron Haskin e roteirizado por John Gay, tem uma abordagem que me fascina. Haskin, um veterano do sci-fi que nos deu a icônica adaptação de “A Guerra dos Mundos” (1953), aqui trabalha com uma ameaça mais íntima, quase susurrante. Não são naves extraterrestres explodindo cidades, mas a possibilidade de que o maior perigo reside no próprio potencial humano, distorcido e descontrolado. O ritmo é deliberado, mas a tensão se acumula como uma tempestade se formando no horizonte. Cada morte, cada pista, cada olhar desconfiado entre os membros do elenco — que inclui talentos como Aldo Ray, Richard Carlson, Yvonne De Carlo e Earl Holliman — serve para apertar o laço em torno do espectador. A atuação de Yvonne De Carlo, por exemplo, como a Sra. Sally Hallson, adiciona um toque de humanidade e vulnerabilidade que é crucial em meio ao terror crescente, mostrando as diferentes reações humanas ao enfrentamento do inexplicável. Earl Holliman, como Prof. Talbot Scott, traz uma energia que, por vezes, confunde, questionando a quem devemos, de fato, temer.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Byron Haskin |
| Roteirista | John Gay |
| Produtor | George Pal |
| Elenco Principal | George Hamilton, Aldo Ray, Suzanne Pleshette, Richard Carlson, Yvonne De Carlo, Earl Holliman, Gary Merrill, Ken Murray, Barbara Nichols, Arthur O'Connell |
| Gênero | Ficção científica, Thriller |
| Ano de Lançamento | 1968 |
| Produtoras | George Pal Productions, Metro-Goldwyn-Mayer |
The Power nos força a questionar: até que ponto a mente humana pode ir? E o que aconteceria se o poder de controlar o outro não fosse uma metáfora, mas uma realidade tangível? O filme brinca com a ideia de uma evolução silenciosa, um salto na capacidade cognitiva que, nas mãos erradas, se transforma em uma ferramenta de destruição. Não se trata de explosões grandiosas, mas de algo muito mais insidioso: a capacidade de invadir o santuário da mente alheia, de plantar sugestões, de desfazer uma vida com um simples pensamento. É um terror psicológico que se infiltra na sua pele, porque ele te faz pensar: e se?
E sabe, essa não é uma história em preto e branco. Existem ambiguidades, as motivações do ser com o poder são nebulosas, e a própria jornada de Jim para desvendá-lo é repleta de becos sem saída e revelações dolorosas. O roteiro de John Gay não entrega todas as respostas de bandeja, o que é um refresco num gênero que, às vezes, peca pela obviedade. Ele te convida a participar da investigação, a se sentir parte desse grupo de cientistas que, de repente, se veem jogados em um jogo mortal de gato e rato, onde o “gato” é invisível, mas seus rastros são inegavelmente reais.
The Power é um convite para revisitar uma era do cinema onde as ideias, e não o espetáculo, eram as verdadeiras estrelas. É um filme que, mesmo mais de cinquenta anos depois, ainda ecoa na minha mente, me lembrando que o maior poder, e o maior perigo, talvez resida em algo que mal arranhamos a superfície de nosso próprio potencial. E você, alguma vez parou para pensar na real extensão do que uma mente pode fazer? Esse filme, com certeza, vai te dar um empurrãozinho nessa direção.




