Sabe, há filmes que a gente assiste e eles simplesmente grudam na gente. Não apenas pela história, mas pela forma como nos fazem sentir, como reviram nossas próprias percepções sobre justiça, vingança e o que diabos significa ser humano em meio ao caos. Três Anúncios Para Um Crime (no original, ‘Three Billboards Outside Ebbing, Missouri’) é um desses. Quando assisti pela primeira vez, em 2018, lembro-me de sair da sala com um nó na garganta e a cabeça fervilhando de perguntas que não se calavam. Até hoje, em 2025, ele continua a ser uma referência quando penso em narrativas que ousam ser brutais e belas ao mesmo tempo.
A ideia central é um gancho que te puxa de imediato: Mildred Hayes, interpretada por uma Frances McDormand em estado de graça – e, cá entre nós, poucas atrizes conseguem transmitir tanta fúria e dor silenciosa com um simples olhar –, está dilacerada pelo brutal assassinato de sua filha adolescente. Cansada da inação da polícia na pequena cidade de Ebbing, Missouri, ela toma uma atitude drástica. Aluga três outdoors abandonados numa estrada esquecida para estampar mensagens diretas e acusatórias ao Delegado Willoughby: “Estuprada enquanto morria”, “E ainda nenhumas prisões?”, “Como é possível, Delegado Willoughby?”. Pronto, o caos está instalado.
O que Martin McDonagh, o mestre por trás da direção e do roteiro, faz aqui é um balé entre o grotesco e o sublime, entre a risada engasgada e o choro contido. A sinopse pode soar pesada – e é –, mas o filme nos presenteia com uma dark comedy que, de alguma forma, nos permite respirar fundo antes de nos afogar novamente na intensidade dramática. Você se pega rindo de um diálogo afiado, de uma situação absurda, e no segundo seguinte, está com o coração apertado por uma cena de profunda tristeza ou revolta. É um equilíbrio precário, mas McDonagh o domina com uma maestria que poucos alcançam.
Mildred não é uma heroína fácil de amar, mas é impossível não se conectar com sua dor visceral e sua determinação férrea. Sua maneira de mascar a goma de mascar, o jeito como ela se recusa a se curvar diante de qualquer um, é a personificação da raiva justa. Mas a personagem de McDormand é mais do que só raiva; ela carrega a exaustão de uma mãe que perdeu tudo e não tem mais nada a perder, a não ser a própria dignidade na busca por justiça. Ela é a força motriz que sacode não só a polícia, mas cada habitante daquela pequena cidade, revelando a complexa teia de relacionamentos e preconceitos que pulsam por ali.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Martin McDonagh |
| Roteirista | Martin McDonagh |
| Produtores | Peter Czernin, Martin McDonagh, Graham Broadbent |
| Elenco Principal | Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges, Abbie Cornish |
| Gênero | Crime, Drama |
| Ano de Lançamento | 2017 |
| Produtoras | Blueprint Pictures, Cutting Edge Group, Fox Searchlight Pictures, Film4 Productions |
E por falar na polícia, oh, a polícia de Ebbing! Temos o Delegado Willoughby, vivido por um Woody Harrelson que entrega uma performance tão carismática quanto comovente. Ele não é um vilão, longe disso. É um homem bom, com seus próprios demônios e um destino trágico que se desenha de forma dolorosa. Sua humanidade é palpável, especialmente quando somos confrontados com sua luta contra o câncer e seu profundo amor pela família. E há o Oficial Jason Dixon, interpretado por Sam Rockwell. Ah, Dixon! Que personagem complexo e, por vezes, repulsivo. Ele é o epítome da polícia corrupta e, sim, brutal. Seu racismo latente e sua propensão à violência – pense naquela cena da queda pela janela – nos fazem querer virar o rosto. Mas o roteiro de McDonagh tem a audácia de nos fazer questionar, de nos forçar a olhar para a possibilidade de redenção, mesmo nos mais improváveis. O arco de Dixon é um dos mais surpreendentes e bem construídos que já vi, transformando-o de um oficial problemático e com sérios problemas de alcoolismo em alguém que, à sua própria maneira torta, também busca algum tipo de justiça ou talvez apenas aliviar sua própria guilty conscience.
O filme não tem medo de tocar em feridas abertas da sociedade: a `brutalidade policial`, o `racismo`, a negligência na investigação de crimes como o `estupro` e `assassinato`. E tudo isso acontece em um cenário de `small town` que, à primeira vista, parece pacato, mas que esconde uma atmosfera de ressentimento e segredos. As ruas vazias, os salões de sinuca (`pool hall`), os bares locais – tudo contribui para a sensação de um lugar onde a vida é dura e as esperanças são poucas.
Três Anúncios Para Um Crime é uma obra que nos lembra que a vida raramente se encaixa em caixas de “bom” ou “mau”. As linhas são borradas, as motivações são ambíguas, e a jornada rumo à resolução nem sempre leva a um destino claro. O final do filme, sem dar spoilers diretos, é um testemunho disso. Não há uma resposta fácil, um encerramento satisfatório no sentido tradicional. Em vez disso, somos deixados com uma reflexão poderosa sobre o que significa perseguir a justiça, a vingança e, quem sabe, a possibilidade de cura.
É um filme que eu recomendaria a qualquer um que esteja disposto a ser desafiado, a sentir profundamente e a rir (mesmo que com um ar de culpa) de algumas das situações mais sombrias imagináveis. McDonagh nos força a confrontar o absurdo da condição humana com uma escrita que brilha e atuações que arrebatam. Ele nos deixa com a pergunta: depois de tudo isso, o que vem a seguir? E essa incerteza, essa porta aberta para o que é possível, é o que, para mim, torna Três Anúncios Para Um Crime um clássico moderno e inesquecível.




