Um Lugar Bem Longe Daqui

Crescer, para mim, significou muitas coisas: aprender a amarrar os sapatos, descobrir a alegria de um livro que te transporta, e, talvez o mais desafiador, entender a complexidade das relações humanas. Por isso, quando a notícia da adaptação cinematográfica de Um Lugar Bem Longe Daqui (Where the Crawdads Sing) começou a circular, um frio na barriga me pegou. Como alguém que se encantou pela prosa de Delia Owens e pela jornada da ‘Garota do Brejo’, a expectativa era gigante, mas também o temor. Afinal, quantas vezes já vimos uma história tão rica e sensorial ser diluída na tela grande?

Mas, como a própria vida nos ensina, algumas apostas valem a pena. E, para mim, esta foi uma delas. Olivia Newman, a diretora, junto com a roteirista Lucy Alibar e a equipe de produção que incluiu nomes de peso como Reese Witherspoon – que tem um faro incrível para narrativas femininas fortes –, conseguiu nos levar para o coração da Carolina do Norte, lá onde o manguezal pulsa com vida e mistérios.

A trama, para quem ainda não se aventurou pelo livro ou pelo filme, tece duas linhas temporais com a delicadeza de uma teia de aranha. De um lado, acompanhamos Kya Clark, interpretada com uma intensidade palpável por Daisy Edgar-Jones, desde sua infância. Ela é a criança abandonada, deixada à própria sorte pela mãe, irmãos e, por fim, por um pai abusivo e mergulhado no alcoolismo. Sua casa? Uma cabana precária no pântano, um refúgio da crueldade do mundo, mas também um berço de uma solidão que aperta o peito. Aos poucos, Kya se molda à natureza selvagem ao seu redor, tornando-se uma verdadeira naturalista, uma artista que encontra beleza e aprendizado em cada folha, em cada criatura. A forma como ela aprende a sobreviver, a pescar, a observar, nos diz muito sobre a resiliência humana. É uma história de amadurecimento que se desenrola sob o sol escaldante do sul dos EUA e os sussurros do brejo.

Paralelamente, somos arrastados para a década de 1960, para a cidade fictícia de Barkley Cove, onde um crime choca a comunidade: o assassinato de Chase Andrews (Harris Dickinson), uma “celebridade” local, um astro do futebol com um histórico de prepotência. E adivinhem quem é a principal suspeita? Kya, claro. A ‘Garota do Brejo’, a pária social, a “diferente” que sempre foi alvo de bullying e preconceito. É aí que o filme se transforma em um eletrizante drama de tribunal, com David Strathairn no papel do advogado Tom Milton, um defensor da justiça que tenta enxergar além dos rótulos.

Atributo Detalhe
Diretora Olivia Newman
Roteirista Lucy Alibar
Produtores Aislinn Dunster, Lauren Neustadter, Reese Witherspoon
Elenco Principal Daisy Edgar-Jones, Taylor John Smith, Harris Dickinson, David Strathairn, Michael Hyatt
Gênero Drama, Mistério, Romance
Ano de Lançamento 2022
Produtoras 3000 Pictures, Hello Sunshine, HarperCollins Publishers

A Daisy Edgar-Jones, gente, é um espetáculo à parte. Ela não apenas “interpreta” Kya; ela se torna Kya. Cada olhar, cada gesto hesitante, cada vez que ela se encolhe sob o peso dos olhares alheios, ou se expande quando está sozinha em seu paraíso pantanoso, nos faz sentir a pele da personagem. É uma atuação que fala volumes sem precisar de muitas palavras, transmitindo a vulnerabilidade de uma alma ferida e a força indomável de um espírito livre. É fácil entender por que seu nome é um dos mais citados quando se fala no filme.

E o romance? Ah, o romance. Ele vem, como as marés, com a chegada de Tate Walker (Taylor John Smith), o primeiro amor de Kya, um jovem que vê além de suas roupas sujas e sua origem humilde, reconhecendo a inteligência e a beleza intrínseca da Garota do Brejo. A química entre Daisy e Taylor é sutil, mas inegável, e suas cenas são um respiro de ternura em meio à dureza da vida de Kya. A forma como o filme explora essa primeira paixão, com suas promessas e suas dores, é um ponto alto, misturando a inocência com a inevitável complexidade de um relacionamento em um mundo que não entende o amor fora dos padrões.

Não posso deixar de mencionar a fotografia do filme. Os pântanos da Carolina do Norte são mais do que um cenário; eles são um personagem vibrante e respirador. As cores, a luz dourada ao pôr do sol, a densidade da vegetação, tudo contribui para uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, linda e ameaçadora, um espelho da própria vida de Kya. É um convite sensorial que nos puxa para dentro daquele ecossistema único, fazendo-nos sentir a umidade do ar e o cheiro da terra molhada.

Claro, a adaptação de um livro tão querido quanto Um Lugar Bem Longe Daqui sempre enfrentará o escrutínio dos fãs – e eu fui um deles na sala de cinema, confesso. Muitos se perguntavam se o filme conseguiria capturar a alma do livro. E, embora nenhuma adaptação consiga reproduzir cada nuance de uma obra literária, Lucy Alibar faz um trabalho admirável em condensar a história sem perder sua essência. O filme consegue traduzir a jornada de sobrevivência, o peso do abandono, a crueldade do preconceito e a beleza resiliente de um espírito indomável.

Em última análise, Um Lugar Bem Longe Daqui, que estreou aqui no Brasil em 1º de setembro de 2022, é mais do que um drama de tribunal ou um romance de formação. É uma reflexão sobre a natureza da justiça, a busca por pertencimento e a inabalável capacidade do ser humano de encontrar beleza e significado mesmo nas circunstâncias mais áridas. É um filme que te faz sentir, te faz torcer, te faz questionar. E isso, para mim, é o verdadeiro poder de uma grande história. Permita-se ser levado pelo brejo, porque, garanto, a viagem vale a pena.

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