Ah, a amizade… Uma palavra que evoca calor, cumplicidade, risadas despretensiosas e, para muitos de nós, a base da nossa rede de apoio. Mas e quando essa mesma palavra se distorce, vira um nó apertado no estômago, um peso que sufoca em vez de elevar? É precisamente nesse abismo sombrio que o filme Uma Amizade Tóxica, dirigido pela talentosíssima Dina Duma, nos arrasta sem pedir licença. E, olha, eu preciso falar sobre ele, porque certas histórias não são só contadas; elas nos roem por dentro, nos fazem questionar os alicerces das nossas próprias relações.
Eu me vi mergulhada na tela, observando Maya (Antonija Belazelkoska) e Jana (Mia Giraud), essas duas jovens que, à primeira vista, parecem inseparáveis, como tantas adolescentes que conhecemos, ou que já fomos. Elas compartilham segredos, risadas, talvez até uma certa arrogância juvenil. Mas, como uma erva daninha que cresce silenciosamente, percebemos que a essência dessa união está corroída. Não é um amor fraternal, e sim uma teia de dependência e controle que Maya, com sua presença magnética e calculista, tece ao redor de Jana. A atuação de Belazelkoska é hipnotizante; ela não precisa gritar para mostrar poder, basta um olhar oblíquo, um sorriso que não alcança os olhos, para entendermos a força manipuladora que ela exerce. Jana, por sua vez, interpretada com uma vulnerabilidade pungente por Giraud, é o espelho onde se reflete a fragilidade da submissão. Você consegue sentir o dilema dela, aquela luta interna entre a lealdade e o instinto de autopreservação, um cabo de guerra que vai, aos poucos, puxando-a para um abismo sem retorno.
O que me prendeu, mais do que a trama em si, foi a forma como Dina Duma, tanto na direção quanto no roteiro coescrito com Martin Ivanov, nos força a testemunhar o lento desmantelamento de tudo que deveria ser inocente na adolescência. É um coming of age que foge do romantismo idealizado. Aqui, o crescimento não é sobre descobertas suaves, mas sobre a perda dolorosa da inocência, sobre as cicatrizes que certas escolhas deixam. O comportamento manipulador das garotas não é uma surpresa. Desde o começo, pequenos gestos, palavras sussurradas, a maneira como elas excluem os outros, como Marija Jancevska, na pele de Elena, a terceira peça desse tabuleiro perigoso, começa a sentir o peso da exclusão e da provocação. Essa não é uma história em preto e branco; não há heróis óbvios ou vilões caricatos. Existem apenas personagens emaranhados em uma rede de falhas humanas, de impulsos irrefletidos e, sim, de uma maldade que brota do vazio e da insegurança.
E então, chegamos ao ponto de virada, àquelas “terríveis repercussões” que a sinopse promete e que o filme entrega com uma brutalidade fria e chocante. A menção de um “murder in school” nas palavras-chave não é um spoiler, é um aviso. É a consequência inevitável quando a manipulação e o controle se desdobram em um cenário onde a maturidade ainda está em construção, e os limites do certo e errado se tornam perigosamente fluidos. Não espere por um melodrama exagerado; a diretora opta por uma abordagem que privilegia o silêncio pesado, os olhares que dizem mais que mil palavras e uma atmosfera sufocante que se adensa a cada cena. É como se o ar se tornasse cada vez mais rarefeito, até que a tragédia explode, não com um estrondo, mas com o eco gelado de um trauma.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretora | Dina Duma |
| Roteiristas | Dina Duma, Martin Ivanov |
| Produtor | Marija Dimitrova |
| Elenco Principal | Antonija Belazelkoska, Mia Giraud, Marija Jancevska, Hanis Bagashov, Verica Nedeska, Ognen Drangovski, Biljana Dragičevikj Projkovska, May-Linda Kosumovic, Ana Levajković |
| Gênero | Drama |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtoras | List Production, Added Value Films, Arizona Productions, Videa Production |
O elenco, incluindo os pais de Elena, interpretados por Verica Nedeska e Ognen Drangovski, e Ana Levajković como a mãe de Elena, adiciona camadas de autenticidade a essa paisagem desoladora. Mesmo com poucos minutos em tela, a dor de uma mãe, a impotência de um pai, são palpáveis, aprofundando o impacto da catástrofe que se desenrola. A produção, com o suporte de List Production, Added Value Films, Arizona Productions e Videa Production, demonstra um cuidado impecável em construir esse universo opressor e, ao mesmo tempo, belíssimo em sua fotografia austera.
Uma Amizade Tóxica não é um filme para se assistir com pipoca e risadas. É uma experiência que incomoda, que cutuca feridas adormecidas sobre a natureza humana e a complexidade das relações adolescentes. Lançado originalmente em 2022 e chegando ao Brasil um pouco depois, ele permanece, em 2025, como uma obra que ecoa. Nos força a pensar: quão tênue é a linha entre a camaradagem e a possessividade? Onde começa a influência e termina a destruição? Dina Duma nos oferece um espelho, e o que vemos refletido nem sempre é bonito, mas é inegavelmente real. E, por essa coragem de mostrar as sombras sem floreios, eu o considero um filme essencial, daqueles que, uma vez vistos, ficam contigo.



