Olha, tem filmes que a gente assiste e, um ano ou dois depois, eles ainda tão ali, cutucando a gente de vez em quando. Não que sejam obras-primas intocáveis, mas porque mexem com algo visceral, com aquela bagunça que a gente tenta arrumar dentro da gente. Para mim, Valentes, que aterrissou nas telas brasileiras lá em fevereiro de 2023, um tempo depois do seu lançamento original, é exatamente esse tipo de filme. Ele não me deu todas as respostas, e talvez nem tenha prometido dar, mas me fez pensar pra caramba, e é por isso que hoje, em outubro de 2025, ainda sinto a necessidade de falar sobre ele.
A gente é bombardeado por histórias de amadurecimento, né? Especialmente na tela. Mas Valentes se propõe a algo um pouco diferente, mais granular, eu diria. A história central é a de Darious, um garoto de 14 anos numa encruzilhada típica de verão: férias, tédio, a busca por algo mais. Só que para Darious, esse ‘algo mais’ se manifesta na forma de uma exploração, quase um experimento, sobre o que significa ser homem, ser ‘valente’. E o filme coloca dois polos para ele orbitar: de um lado, Malcolm, o pai, que é uma rocha de rigidez, expectativas e, por vezes, uma ausência presente; do outro, Porter, um andarilho misterioso que surge como um espelho sedutor para uma masculinidade diferente, talvez mais livre, talvez mais perigosa.
Sabe aquele calor pegajoso do verão que parece distorcer o tempo e a realidade? Valentes captura isso perfeitamente. Darious na sua bicicleta, explorando as ruas do subúrbio, a escola particular que representa um futuro pré-moldado, o parque de diversões que promete a fantasia e a adrenalina, mas que pode esconder perigos. É um cenário que, para mim, evoca aquela fase da vida onde cada descoberta, por menor que seja, parece ter um peso monumental. A tensão não está em grandes explosões, mas nos silêncios incômodos, nos olhares que se cruzam e desviam, na linguagem não verbal que Malcolm, o pai, usa para se comunicar — ou para não se comunicar. Shamier Anderson constrói um Malcolm que é um poço de complexidade, um homem que ama, mas que talvez não saiba como demonstrar sem erguer muros.
E Trevante Rhodes como Porter? Ele é um furacão calmo. Sua presença é magnética, daquele tipo que te puxa para perto enquanto te avisa, por baixo dos panos, que talvez seja melhor manter distância. É fascinante ver como Darious, interpretado com uma vulnerabilidade pungente por Jalyn Hall, é atraído por essa figura quase mítica. O filme não te entrega de bandeja as intenções de Porter; ele te faz questionar a cada interação, a cada sorriso enigmático, a cada gesto de ‘orientação’. É aí que a trama ganha suas cores mais escuras, quando a verdadeira identidade de Porter é revelada, jogando Darious no meio de um conflito que ameaça não só a estabilidade da sua família, mas a sua própria segurança. A busca pela figura paterna ideal, pelo modelo de virilidade, torna-se uma jornada perigosa, onde as linhas entre herói e vilão, entre guia e predador, se tornam assustadoramente tênues.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Miles Warren |
| Roteiristas | Miles Warren, Ben Medina |
| Produtores | Aaron Ryder, Scott Frank, Trevante Rhodes, D. Scott Lumpkin, Jewerl Ross |
| Elenco Principal | Jalyn Hall, Trevante Rhodes, Shamier Anderson, Shinelle Azoroh, Frank Oakley III |
| Gênero | Drama |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtoras | Ryder Picture Company, Lyrical Media, Toula67 Entertainment, Silent R Management |
Acho que preciso tocar em algo. Eu ouvi burburinhos por aí, sabe? Que o filme é “um pouco racista, terrivelmente pretensioso, bem patético e terrivelmente chato. O final é manco também.” E consigo entender por que alguém poderia sentir isso. Valentes não tem um ritmo frenético. Ele respira, ele pausa, ele te força a confrontar as ambiguidades das relações humanas e as expectativas pesadas que a sociedade impõe aos homens, especialmente aos homens negros, sobre como eles devem se portar, ser “valentes”. Essa exploração da masculinidade tóxica ou frágil, as dinâmicas raciais implícitas ou explícitas na trama, podem ser desconfortáveis para alguns, ou interpretadas como uma crítica social mal direcionada.
Mas chamar de “entediante”? Acho que isso é confundir a lentidão proposital com falta de conteúdo. Miles Warren, como diretor e um dos roteiristas, junto a Ben Medina, escolhe um caminho mais sutil, mais imersivo, onde os pequenos detalhes, as nuances das performances, são o que constrói a narrativa. O filme te desafia a ter paciência, a realmente sentir a angústia de Darious e a tensão entre os adultos que o cercam.
E quanto ao final “manco”? Bem, eu não o vejo como manco, mas como brutalmente honesto. A vida raramente oferece desfechos limpos, com todas as pontas atadas e lições claramente aprendidas. O final de Valentes te deixa com um gosto amargo e muitas perguntas. É um encerramento que ecoa a complexidade da vida de Darious, um lembrete de que nem toda jornada de amadurecimento termina com uma redenção clara ou um “felizes para sempre”. É um final que te força a preencher as lacunas com suas próprias reflexões, e isso, para mim, é o verdadeiro sinal de um drama que se leva a sério.
Valentes é um filme que não se dobra às convenções fáceis. Ele não quer te entreter no sentido mais puro da palavra; ele quer te provocar, te fazer pensar sobre a fragilidade das relações paternas, sobre as heranças emocionais que carregamos, e sobre o peso, muitas vezes invisível, da busca por uma identidade masculina num mundo cheio de expectativas contraditórias. Para mim, a performance de Jalyn Hall, a presença de Trevante Rhodes e a direção contida de Miles Warren fazem de Valentes um filme que, apesar de suas imperfeições e de não ser para todos os gostos, consegue, sim, deixar sua marca. E, em 2025, ainda me pego pensando nele. E isso, meu amigo, já diz bastante.




