O campeão de um esporte inusitado luta para conciliar sua vida amorosa com a defesa do título de empilhador de copos mais rápido do mundo.
Ah, Veloz, Furioso e Apaixonado. Um título que, para mim, sempre evocou uma risadinha interna, quase um desafio. Quem diria que por trás dessa combinação inusitada de palavras estaria uma das experiências cinematográficas mais singulares e profundamente ressonantes que tive em 2022? Três anos se passaram desde que esse filme tailandês de Nawapol Thamrongrattanarit aterrissou nas telas brasileiras, e a verdade é que ele ainda reverbera em mim de maneiras que poucas produções conseguem.
Eu sou, como muitos de nós, um ser humano à deriva num mar de distrações, sempre buscando algo que me fisgue, que me faça parar e pensar. E Veloz, Furioso e Apaixonado fez exatamente isso. Lembro-me da primeira vez que li a sinopse: “O campeão de um esporte inusitado luta para conciliar sua vida amorosa com a defesa do título de empilhador de copos mais rápido do mundo.” Sério? Empilhador de copos? A mente cínica sussurrava: “Isso é uma piada.” Mas, ah, como Nawapol transformou a piada em uma tapeçaria rica e multifacetada de humanidade.
Para mim, o coração pulsante do filme é Kao, interpretado com uma dedicação quase palpável por ณัฏฐ์ กิจจริต. Ele não é apenas um empilhador de copos; ele é a personificação da obsessão. Aquele brilho nos olhos, a forma como as mãos dele se movem com uma velocidade que desafia a gravidade e a crença – não se trata apenas de agilidade, mas de uma busca incessante pela perfeição num domínio que a maioria de nós consideraria… trivial. E é aí que reside a genialidade do filme. Ele pega algo tão aparentemente insignificante e o eleva a uma forma de arte, de esporte, de filosofia de vida. Você sente o peso de cada segundo, a tensão em cada movimento de encaixe. Não é “ação” no sentido hollywoodiano, mas uma coreografia íntima e intensa que prende a atenção como um thriller. Sim, um thriller de empilhamento de copos. Quem diria?
E como poderia um homem tão singularmente focado navegar pelo labirinto que é uma relação amorosa? Aqui entra Jay (Urassaya Sperbund), a namorada de Kao, que é, por si só, uma força da natureza. Ela é o contraponto, a âncora na realidade, a voz (muitas vezes exasperada) da razão. Jay não é uma mera coadjuvante; ela é o esteio, a organizadora, a gestora da vida que Kao tão alegremente ignora em sua busca por glória nos copos. Ver Jay equilibrar as contas, cuidar da casa, planejar as refeições enquanto Kao treina incessantemente, é ver a dura realidade de muitos relacionamentos, onde um parceiro assume o fardo para que o outro persiga seus sonhos – ou obsessões. A química entre ณัฏฐ์ e Urassaya é magnética, um balé de frustração e afeto, de renúncia e amor, que te faz torcer por eles mesmo quando Kao está sendo um poço de egoísmo involuntário. Há momentos em que você sente o nó na garganta de Jay, o cansaço em seus olhos, e a pergunta surge: até onde vai o amor?
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | นวพล ธำรงรัตนฤทธิ์ |
| Roteirista | นวพล ธำรงรัตนฤทธิ์ |
| Produtor | นวพล ธำรงรัตนฤทธิ์ |
| Elenco Principal | ณัฏฐ์ กิจจริต, Urassaya Sperbund, Anusara Korsamphan, Kanokwan Butrachart, วิพาวีร์ พัฒนศิริ |
| Gênero | Comédia, Romance, Ação, Drama, Thriller |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtoras | Very Sad Pictures, Happy Ending Film, GDH 559 |
O que me prendeu nesse filme, além da singularidade do enredo, foi a forma como ele dança entre os gêneros. Começa como uma comédia, claro, com a absurdidade de um “esporte” tão nichado. A gente ri, né? Mas rapidamente se transforma num romance agridoce, com a luta de Kao e Jay para manter a chama acesa enquanto suas vidas parecem se desencontrar. E o drama, ah, o drama, é sutil, mas profundo, nas escolhas que fazemos, nos sacrifícios que pedimos e nas inevitáveis consequências. O toque de “thriller”, como mencionei, vem na tensão das competições, mas também na incerteza do futuro, na fragilidade da vida a dois. É um malabarismo que Nawapol domina com uma delicadeza e uma precisão que me lembram o próprio Kao empilhando seus copos.
Nawapol Thamrongrattanarit não apenas dirige e escreve; ele respira vida nesses personagens e nesse mundo. Suas escolhas visuais, a forma como ele filma os treinos de Kao – quase como um documentário esportivo, mas com um toque de surrealismo – são hipnotizantes. A fotografia é limpa, mas vibrante, e a trilha sonora complementa perfeitamente a montanha-russa emocional. Você percebe a “impressão digital” do produtor นวพล em cada cena, na atenção aos detalhes, na maneira como ele extrai humor e patetismo da vida cotidiana. Very Sad Pictures e Happy Ending Film são nomes que parecem ter nascido para este projeto, dada a complexidade de sentimentos que a produção nos entrega.
Três anos depois, Veloz, Furioso e Apaixonado não é apenas um filme que assisti. É uma conversa que tive com a tela sobre o equilíbrio entre paixão e responsabilidade, entre a autoperseguição e a conexão humana. Ele me fez questionar minhas próprias obsessões, as coisas que coloco em primeiro lugar e o custo invisível para quem está ao meu lado. Não há respostas fáceis, o filme nos mostra isso. Há apenas o movimento constante, o empilhamento e o desempilhamento de nossos próprios copos de prioridades.
Se você, como eu, está procurando algo que fuja do óbvio, que te faça rir, chorar, pensar e, quem sabe, até reconsiderar o significado da maestria, dê uma chance a Veloz, Furioso e Apaixonado. É uma joia do cinema tailandês que, com sua mistura inusitada de gêneros e um coração enorme, provou que as histórias mais profundas podem surgir dos lugares mais inesperados. E olha, ele ainda me faz querer tentar empilhar uns copos de vez em quando. Só de brincadeira, tá? Ou talvez não. Nunca se sabe onde a próxima obsessão pode surgir.
