A vida, meus amigos, essa montanha-russa imprevisível de sentimentos, muitas vezes nos presenteia com um tipo de término que parece um soco no estômago, um balde de água fria no meio do verão. E, sejamos honestos, quem nunca sentiu que, depois de uma desilusão amorosa, um pedaço de si mesmo virou um monstro? Não metaforicamente, mas, tipo, um monstro de verdade, daqueles que roncam e têm dentes? É exatamente essa a premissa que me fisgou em Your Monster, um curta-metragem de 2020 que, cinco anos depois do seu lançamento, ainda ecoa na minha mente como um bom refrão pop chiclete, mas com uma dose de melancolia.
Eu me deparei com essa pequena joia cinematográfica da Caroline Lindy – que não só dirigiu, mas também escreveu o roteiro – e algo nela clicou imediatamente. Talvez seja a honestidade brutal com que ela lida com a dor de um coração partido, ou talvez o jeito despretensioso de misturar o absurdo da fantasia com a comédia mais palpável e humana. Você tá lá, rindo de um monstro literalmente convivendo com uma mulher recém-largada, e de repente, um nó se forma na garganta porque a piada é, na verdade, um espelho das nossas próprias inseguranças pós-término.
A história nos apresenta Laura (Kimiko Glenn), que, após o fim de seu relacionamento com Jacob (Scott Michael Foster), se vê em uma situação um tanto peculiar: um monstro peludo, de dentes afiados, mas surpreendentemente articulado (e com a voz do Tommy Dewey, o que já é um bônus), emerge dela, ou talvez para ela, como a personificação de toda a sua dor, raiva e autocomiseração. E aqui, a Caroline Lindy, como roteirista e diretora, mostra uma sensibilidade ímpar. Ela não entrega a fantasia de bandeja; ela a costura com os retalhos da realidade de Laura, fazendo com que o monstro seja quase uma parte intrínseca dela, um espelho de seu estado emocional. É uma sacada genial, né? Quem nunca se sentiu como um monstro incontrolável depois de ter o coração em pedaços?
A performance de Kimiko Glenn como Laura é um show à parte. Ela transita da vulnerabilidade quase infantil de uma jovem despedaçada, que chora assistindo desenhos animados, para uma força emergente de quem precisa lidar com esse hóspede indesejado – e barulhento – dentro de casa. Você sente a exaustão dela, a frustração, mas também a faísca de humor que surge em meio ao caos. Não é uma atuação que grita “Olha como eu estou triste!”, mas sim uma que sussurra as nuances do luto, da raiva e, por fim, da redescoberta. E o monstro de Tommy Dewey? Ele é a cereja do bolo, um personagem que poderia facilmente ser só uma criatura de CGI para sustos, mas que ganha vida com uma personalidade que é tanto irritante quanto, de alguma forma, cativante. Ele é o lado sombrio que todos nós temos, aquele que diz as verdades mais cruéis e que não tem filtro. A química entre os dois, por mais inusitada que seja, é o que sustenta o filme.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretora | Caroline Lindy |
| Roteirista | Caroline Lindy |
| Produtores | Caroline Lindy, Amanda Mortlock |
| Elenco Principal | Kimiko Glenn, Tommy Dewey, Scott Michael Foster, Kaylanee Erica Davis |
| Gênero | Fantasia, Comédia |
| Ano de Lançamento | 2020 |
| Produtora | Women in Film |
O que me encanta em Your Monster é como ele subverte as expectativas. Não é só uma comédia de monstros, nem um drama pesado sobre luto. É um híbrido que te pega de surpresa, te faz rir e te faz pensar. A forma como a Lindy explora a ideia de que o “monstro” só existe enquanto alimentamos a dor, e que a cura começa quando confrontamos essa fera interna, é algo que ressoa profundamente. E o fato de ser um curta-metragem? Isso é uma virtude. Não há gordura, cada cena tem um propósito, cada diálogo, por mais bobo que pareça, constrói a narrativa e aprofunda os personagens. É como um tiro certeiro que atinge o alvo sem desviar.
E falando em acertos, é impossível não notar a perspectiva feminina que permeia o filme. Dirigido e roteirizado por uma mulher, Caroline Lindy, e produzido em parte por “Women in Film”, Your Monster tem uma sensibilidade particular ao abordar as emoções de Laura. Não é um olhar externo, frio, mas sim um mergulho empático na psique feminina pós-término. Há uma autenticidade nas reações de Laura, no seu processo de cura que, acredito, se beneficia enormemente dessa visão. Não é sobre generalizar experiências, mas sobre trazer uma especificidade que muitas vezes é perdida em narrativas mais amplas.
Cinco anos se passaram desde que Your Monster viu a luz do dia, e posso dizer que ele envelheceu como um bom vinho, ou melhor, como uma daquelas músicas que você escuta e pensa: “Essa me entende.” Ele continua sendo um lembrete agridoce de que, sim, os monstros existem, mas muitas vezes eles são criações nossas, nascidos do nosso próprio medo e dor. E o mais importante: temos o poder de, eventualmente, mandá-los de volta para de onde vieram. Your Monster não é só um filme; é um abraço apertado com um toque de diversão, um aceno de cabeça para todos nós que já tivemos que lutar contra os nossos próprios demônios internos – e que, talvez, até aprendemos a dar um nome a eles. E você, qual o nome do seu?




