Vidas Duplas

Publicidade
Assistir quando e onde quiser Assistir

A inteligência mordaz de Olivier Assayas manifesta-se plenamente em Vidas Duplas (Non-Fiction), uma comédia dramática lançada em 2018 que se distingue pela sua abordagem perspicaz e dialética às ansiedades contemporâneas. O filme transcende a mera representação de conflitos pessoais para se estabelecer como um estudo vibrante sobre a intersecção da cultura digital, a crise existencial da meia-idade e a perene complexidade das relações humanas no século XXI. Assayas não apenas narra uma história, mas orquestra um debate vivaz sobre a natureza da verdade, da ficção e da autenticidade na era da informação.

A tese central de Vidas Duplas reside na sua exploração da performatividade inerente à vida moderna, onde a identidade pessoal e profissional se tornam cada vez mais maleáveis e negociáveis. O filme argumenta que, enquanto a revolução digital reconfigura o mundo editorial, os indivíduos (sejam editores, autores ou suas parceiras) também se veem compelidos a redefinir suas próprias narrativas, muitas vezes através de autoengano e afetacão, buscando significado em meio ao caos de um presente em constante mutação. A obra questiona a fronteira entre a vida pública e a privada, revelando as rachaduras que surgem quando essas esferas colidem, e a forma como a “ficção” invade e molda a “realidade” pessoal.

A direção de Olivier Assayas em Vidas Duplas reflete uma evolução notável em sua filmografia, consolidando sua maestria em lidar com narrativas densas em diálogo e carregadas de subtramas emocionais. Diferentemente de obras anteriores como “Carlos” ou “Personal Shopper”, que exploravam gêneros mais definidos, aqui ele se aprofunda em um drama de personagens, utilizando um estilo mais leve e irônico, mas igualmente incisivo. Assayas emprega planos médios e close-ups que privilegiam os rostos e as reações sutis de seus atores, permitindo que a complexidade de suas emoções e o subtexto de suas conversas se revelem com clareza clínica. A câmera, frequentemente ativa, acompanha os personagens em ambientes fechados — reuniões editoriais, jantares parisienses — enfatizando a incessante troca de ideias e a atmosfera de debate intelectual que permeia suas vidas.

Tecnicamente, o filme é um exemplar da excelência francesa em drama de diálogo. O roteiro, também assinado por Assayas, é uma intrincada tapeçaria de conversas ágeis e inteligentes, que fluem com uma espontaneidade quase teatral. A montagem, com seu ritmo casual, mas deliberado, permite que o espectador se familiarize com os personagens e seus dilemas sem pressa, pontuando os momentos de reflexão com transições suaves que mantêm a narrativa coesa. A fotografia, embora sem grandes flamboyances, captura a luz natural de Paris com uma estética elegante e funcional, realçando a atmosfera íntima das interações. No que tange às atuações, Guillaume Canet (Alain) exibe uma mistura de autoridade e vulnerabilidade, enquanto Juliette Binoche (Selena) irradia uma intensidade que dá camadas profundas à sua personagem. Vincent Macaigne (Léonard), por sua vez, entrega uma performance que oscila entre o patético e o candid, encarnando o autor boêmio com uma dedicação quase zealous que o torna simultaneamente irritante e cativante. Em uma cena particularmente memorável, Léonard, confrontado com a sugestão de adaptar sua obra para um podcast, expressa sua descrença com um misto de melancolia e resignação, enquanto a edição alterna entre seu rosto e as reações dos editores, capturando a colisão geracional e ideológica que define o filme.

Direção Olivier Assayas
Roteiro Olivier Assayas
Elenco Principal Guillaume Canet (Alain), Juliette Binoche (Selena), Vincent Macaigne (Léonard), Christa Théret (Laure), Nora Hamzawi (Valérie)
Gêneros Comédia, Drama, Romance
Lançamento 11/10/2018
Produção CG Cinéma, Vortex Sutra, ARTE France Cinéma, Playtime

Os temas centrais de Vidas Duplas são multifacetados. A crise da meia-idade é examinada através das frustrações profissionais e pessoais de Alain e Léonard, que questionam suas escolhas e o valor de seu trabalho. A revolução digital é abordada não como uma ameaça unidimensional, mas como uma força ambivalente que traz novas oportunidades e novas inseguranças. O filme explora a mercantilização da cultura e a efemeridade das tendências, como visto nos debates sobre e-books, podcasts e a relevância de blogs versus a literatura tradicional. Os relacionamentos amorosos, por sua vez, servem como espelho para as crises individuais, com a infidelidade e a busca por conexão autêntica surgindo como um leitmotiv. Em uma das sequências mais incisivas, Alain e Selena discutem o impacto da tecnologia em seus hábitos de leitura e na intimidade do casal, enquanto tomam vinho em sua cozinha, com a iluminação suave realçando a distância crescente entre eles, apesar da proximidade física. É um momento de clareza dolorosa que sintetiza a relevância cautionary do filme.

No nicho de comédias dramáticas francesas intelectuais que exploram as nuances da vida contemporânea e as crises existenciais de seus personagens, Vidas Duplas se alinha com obras que priorizam o diálogo e a construção de personagens sobre a ação frenética. Definido como um Drama Conversacional Urbano com foco na indústria cultural, este filme se destaca por sua reflexão sobre a era digital. Dentro da filmografia do próprio Assayas, a obra dialoga diretamente com “Acima das Nuvens” (Clouds of Sils Maria, 2014), no qual o diretor também examina a pressão da indústria (nesse caso, teatral e cinematográfica) sobre artistas envelhecendo e a complexidade das relações de poder e amizade. Ambos os filmes compartilham uma estética que valoriza a performance verbal e a investigação de identidades em transição. Fora de sua obra, Vidas Duplas encontra paralelos temáticos e estilísticos com “O Nome das Pessoas” (Le Nom des Gens, 2010), de Michel Leclerc, outra comédia romântica francesa que, embora mais politizada, utiliza o humor e o drama para discutir identidades e convicções pessoais em meio a relacionamentos complexos, abordando com uma pitada de auto-admiração os dilemas culturais da França moderna.

Vidas Duplas é uma obra inspiracional para aqueles que apreciam o cinema que estimula o intelecto e provoca o debate. É um filme que, longe de oferecer respostas fáceis, convida à reflexão sobre as escolhas que fazemos, as histórias que contamos a nós mesmos e aos outros, e a forma como navegamos por um mundo em constante redefinição. É um título essencial para espectadores que buscam um cinema perspicaz, com atuações adoring de um elenco afiado e um roteiro que desafia a superfície das interações humanas, revelando a complexidade e a contradição que residem sob a polidez social.

Publicidade

Ofertas Imperdíveis na Shopee

Que tal uma pausa? Confira as melhores ofertas do dia na Shopee!

Aproveite cupons de desconto e frete grátis* em milhares de produtos. (*Consulte as condições no site).

Ver Ofertas na Shopee